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Cores do francês Henri Matisse dominam a Pinacoteca

Mostra expõe pinturas, desenhos, gravuras e esculturas de todas as fases do artista

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo,

03 de setembro de 2009 | 10h23

O poder transcendental da pintura do francês Henri Matisse (1869-1954), que atravessou o século 20 como principal rival de Picasso, é inquestionável. Tanto que Émilie Ovaere, curadora adjunta do museu que leva seu nome na França, ao organizar a exposição Matisse Hoje na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, que será aberta a partir de 5 de setembro, reuniu, além de 80 obras suas, trabalhos de pintores contemporâneos franceses que ainda fazem uso de suas técnicas e invenções. Como eles, Matisse buscava, acima de tudo, a expressão. Injustamente, diziam dele que tudo o que procurava não ia além de uma satisfação puramente visual. Acusavam-no, enfim, de ser decorativo. Ele, parafraseando Delacroix, respondia que os artistas não são compreendidos, apenas aceitos. E defendia o decorativo como uma qualidade essencial de uma obra de arte. Concordam com ele seus cinco discípulos contemporâneos que dialogam com Matisse na exposição.

 

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Assim, a mostra da Pinacoteca traz pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e papéis recortados "comentados" visualmente pelos artistas Cécile Bart, Christophe Cuzin, Frédérique Lucien, Pierre Mabille e Phillipe Richard, cinco representantes da arte contemporânea francesa que não fazem feio ao lado do dono da cor, um homem que atravessou duas guerras mundiais sem permitir, como disse o crítico italiano Giulio Carlo Argan (1909-1992), que a dor do mundo entrasse em sua pintura. A arte, defendia Argan, "conserva e restitui aos homens a alegria de viver que a tragédia destrói". Por isso, Matisse é, conforme a visão do crítico, um dos pilares da ponte artística que uniu a França ao resto do mundo (oriental, inclusive).

 

A mostra, diz a curadora Emilie, faz um percurso retrospectivo da pintura "incorruptível" de Matisse - e não só dela. Ele vem acompanhado de obras contemporâneas que exploram os temas básicos de sua arte: a cor, a linha, o arabesco e o espaço, que, segundo o pintor, não tinham autonomia para desprezar as

relações entre esses elementos constituintes da boa pintura. E há inúmeros exemplos dela na exposição, desde uma paisagem feita no final do século 19 em Belle-île-en-Mer, uma ilha na costa atlântica da Bretanha, até os papéis recortados da fase terminal, época em que Matisse se concentra nos vitrais e ornamentos litúrgicos da Capela de Vence e sua caligrafia abre falência por conta de um derrame cerebral que o levou à morte em 1954.

 

Felizmente, essa "indesejada das gentes" não marca presença na mostra - alegre, colorida, sensual -, que tem pinturas icônicas como Torso Grego e Vaso de Flores (1919) e Natureza Morta com Magnólia (1941), esculturas de bronze (Nu au Canapé), gravuras, livros ilustrados e as collages com papéis recortados dos anos 1940. Por essa época, Matisse, submetido a uma colostomia e preso a uma cadeira de rodas, passou a usar a tesoura no lugar do pincel. Com a ajuda de assistentes, ele criou collages de grandes dimensões que chamou de ‘gouaches découpés’. Painéis serigrafados (da série Océanie) e pranchas do livro Jazz, publicado em 1947, completam a exposição, que traz fotografias do ateliê do artista feitas por Cartier-Bresson e Man Ray.

 

Essas imagens registram mais que a figura do pintor. Documentam seu modo de produção. A curadora Emilie chama a atenção para a relação afetiva que Matisse mantinha com os objetos, intensa como a de Morandi com suas garrafas. "Ele gostava de se ver rodeado por flores e mulheres", observa, lembrando que as fotos de Cartier-Bresson flagram o pintor integrado à arquitetura do ambiente do ateliê como se fizesse parte da decoração. E, mesmo idoso, transpira sensualidade, saudoso de suas odaliscas. A esse respeito, a curadora é tão cautelosa como a biógrafa inglesa do pintor, Hilary Spurling, que jura ter Matisse feito amor "apenas na tela" com sua modelo Lydia - ela começou como enfermeira da mulher do pintor e virou sua assistente. "Os ingleses são um pouco moralistas, não é mesmo?", observa a curadora francesa, elogiando o primeiro volume da biografia, mas acirrando a histórica rivalidade com os súditos da rainha. Em tempo: a biógrafa inglesa esqueceu que madame Matisse exigiu a demissão de Lydia. A razão parece óbvia.

 

De qualquer modo, mulheres não faltam na mostra. A fixação de Matisse pelo corpo feminino, por cores vibrantes, tecidos, roupas e acessórios - justificada pela biografia do pintor, nascido em um povoado têxtil (Le Cateau-Cambrésis)- é sintetizada no óleo Odalisque à la Cullote Rouge (1921). De cores vivas, ele traz uma odalisca em pose sensual e distante da paleta sombria do começo de carreira, que seguia os mestres do Louvre. É possível, percorrendo a mostra, organizada de forma cronológica, acompanhar a evolução dessa pintura, da influência de Cézanne e dos orientais até os sintéticos papéis recortados, passando pelas obras fauvistas e as de caráter decorativo, que dão espaço, em 1914, a uma expressão mais sofisticada - e que será analisada num colóquio (promovido pela Pinacoteca) e num livro (Matisse: Imaginação, Erotismo, Visão Decorativa) que a editora Cosac Naify lança durante a mostra (aberta até 1º de Novembro).

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