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Coreógrafos dão movimento às obras de Bach

Espetáculo 'Logos Diálogos' reuniu seis artistas para criarem suas interpretações de suítes

HELENA KATZESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2012 | 03h10

Trata-se de uma legítima história de amor, com direito, inclusive, a uma pitada trágica - que sempre eleva o nível da tensão, claro. Tudo começou com o convite para seis coreógrafos transformarem em dança as seis suítes para violoncelo desacompanhado, que Bach compôs durante o período em que foi mestre de Capela em Cöthen, entre 1717 e 1723. Como se sabe, as suítes se popularizaram tanto que foram transcritas para vários outros instrumentos. Mas neste projeto, elas são tocadas por quem o concebeu e dirigiu, o celista Dimos Goudaroulis, da forma mais aproximada à que Anna Magdalena Bach as transcreveu.

A sua ligação com as seis suítes ultrapassa a de um especialista. É uma devoção. Ele as estuda há 28 anos e, quando fala delas, as palavras jorram, incontroláveis, como se espoucassem, de tanto entusiasmo. Mas o ano e meio dedicado a burilar cada detalhe do projeto, que reuniu cerca de 60 profissionais, terminou em uma surpresa dura de ser enfrentada: Dimos não pôde realizar o sonho de estar no palco tocando as seis suítes porque, na antevéspera da estreia, caiu no fosso da orquestra, fraturou o pulso em três lugares. Mas a sua música se fez presente de outra maneira, pois foi a sua gravação integral das suítes que foi ouvida no Teatro Alfa no início do mês. Batizado de Logos Diálogos, realizou-se em quatro dias de espetáculo, distribuídos em duas semanas consecutivas, cada qual apresentando três das suítes.

Como homenagem, os envolvidos decidiram manter o seu violoncelo em cena. Ismael Ivo, autor e intérprete da dança da Suíte n.º 5, em Dó Menor, foi além e dançou com/para Dimos. Quem assistiu ganhou de presente um momento precioso, regido pela sintonia entre o corpo do músico e o do seu violoncelo, ambos transformados em música, mesmo permanecendo silenciosos.

Curiosamente, mantendo as coincidências numéricas que são encontradas nas seis suítes, esse tipo de sintonia entre corpo e música só aconteceu na outra suíte em tom menor, a segunda, em Ré Menor, que, como a quinta, também fica no meio de outras duas. Mas esta foi uma outra espécie de sintonia, pois ocorreu entre música e dança, felizmente. Coreografada por Luis Arrieta e dançada por ele e Ana Botafogo, sobreviveu ao seu figurino e à desproporção do tamanho do palco, que se impôs sobre a intimidade daquele dueto.

A diferença está no tipo de escuta dos coreógrafos convidados. Jorge Garcia, Henrique Rodovalho, Tíndaro Silvano e Deborah Colker, cada qual à sua maneira, e com a assinatura que cunhou, reproduziu uma estrutura semelhante: distribuiu passos e mais passos de dança sobre o palco, como se a música fosse um tapete no qual se despeja um movimento a cada nota tocada. Às danças que produziram restou o papel de atender à música em um estado de subserviência ao seu pulso, sem explorar a complexidade do ouvir que estas seis suítes pedem.

Ismael Ivo tomou outro caminho, o da construção de imagens, mas faltou um diretor para impedir a despotencialização que o excesso promoveu. Aliás, a ausência de um diretor artístico especializado em dança talvez tenha se constituído na questão central de Logos Diálogos. A sua estrutura de um lego formado por seis danças por encomenda dificilmente deixaria de ser uma cilada, especialmente quando a articulação entre elas é delegada ao figurino e à iluminação, que não conseguem cumprir essa tarefa.

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