Coreografia atualiza mito de Cinderela

A Gata Borralheira faz faxina, vive entretop models, tem um protetor que lhe realiza os desejos, masrecusa-se a ser uma princesa fabricada pela indústria da moda.Com essa história, adaptada do conto infantil, a DeAnima,companhia oficial do Rio, estréia nesta quinta-feira, no Teatro Carlos Gomes, Cinderela... Ser ou (A)parecer, seu segundo espetáculo, emseis meses de fundação. A coreografia foi criada pelo brasileiroRoberto de Oliveira para a Ópera de Berlim, em 1998, sobre amúsica de Serguei Prokofiev, mas ele evitou os caminhos de JohnNeumeier, Rudof Nureyev ou Frederic Ashton, que visitaram otema. "Eles criaram versões tradicionais. No fim, a moçapobre fica igual às princesas. Nesta adaptação, ela se torna topmodel, que são as cinderelas atuais, mas, além do coração dopríncipe, quer ser ela mesma", adianta Oliveira. No elenco,estão 21 bailarinos da companhia, a modelo Érica Matheus,selecionada num concurso em favelas cariocas, e noveadolescentes da Casa do Pequeno Jornaleiro, alunos do DeAnima."Érica desfila e os meninos fazem figuração. Só agora elescomeçam a fazer aulas de clássico, mas é importante estar nopalco desde cedo. Ainda adolescente, com seis meses de balé,aprendi com Edmundo Carijó a responsabilidade de ser parte de umespetáculo." Ao contrário de Despertar, criação anterior doDeAnima, que destacava a técnica dos bailarinos, Cinderela éteatral, explora a mímica, o humor e a ironia. "Com bailarinosbrasileiros é fácil. Eles entendem rápido a cena, a coreografia.Mas há uma questão cultural, porque o mundo da moda é algo forade suas vidas", diz Roberto de Oliveira. "Eles se empenhammais que os profissionais europeus", acrescenta John Gracum,que deixou o Ballet de Sttutgart para montar o DeAnima. "Eupoderia contratar bailarinos estrangeiros para viverem osprotagonistas, mas quero formar os brasileiros. Além disso, aNina Botkay, a nossa Cinderela, é uma garota de muito futuro nadança." No Rio, a versão alemã mudou em função dos bailarinos,do Teatro Carlos Gomes e da produção nacional. O cenógrafo edesigner de luz da Ópera de Berlim, Stefan Morgesntern, veiopara cá e se surpreendeu com a estrutura que encontrou. "Lá,tudo fica pronto seis meses antes e há muito mais gente nosbastidores", contava ele na semana passada, enquanto o cenárioera montado. "Aqui, as funções se acumulam e encontram-seoutras soluções. Ninguém recusa tarefas, porque todos seconsideram responsáveis pelo espetáculo." Para transformar a escola de modelos em palco dedesfiles, por exemplo, eram necessários quase 20 maquinistasalemães, enquanto no Rio, uma fábrica e uma loja de persianasforneceram o material que é acionado por duas pessoas."Conseguimos parcerias com a iniciativa privada, já que só coma verba pública seria complicado realizar nossa proposta",comenta Gracum. O DeAnima tem verba de R$ 2 milhões anuais paraproduzir os espetáculos, manter a escola, realizar workshops epagar os bailarinos. "Esse lado é interessante no Brasil. Asempresas têm consciência de seu papel cultural." A proposta do DeAnima é realizar espetáculos populares.Cinderela vai até 28 de julho, de quinta a domingo, comingressos a R$ 12,00 à noite e R$ 6,00 nas matinês. "Vamostrazer também alunos de escolas públicas para formar público",informa Oliveira. "É importante criar o hábito de freqüentar oteatro." Para o segundo semestre está programado umminifestival de novos coreógrafos, com espetáculos na sede daescola, um antigo armazém na zona portuária, e uma temporada noCarlos Gomes reunindo as melhores criações. "Vamos privilegiaro bailarino. A dança contemporânea é focada no trabalho doscoreógrafos, mas o bailarino é sempre a peça principal."

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