Coreografia aquém de seu tema

O tempo é não apenas o assunto como também o algoz de Passatempo, nova criação de Renata Melo, em cartaz no Teatro Sesc Anchieta até o dia 28. Revelando familiaridade com abordagens modernas sobre o assunto ("tempo é duração", "o breve período destinado à minha vida me é designado neste momento e não em outro de toda a eternidade que existiu antes e que virá depois de mim"), transita entre Bergson e Pascal e, na filosofia, por aí fica - ao menos naquilo que da investigação se mostra na estrutura do trabalho. A eleição de um assunto como esse nas mãos de uma coreógrafa que, como Renata Melo, investiga com cuidado os seus temas, produz uma certa expectativa. Tratar do tempo, esse assunto que a própria física considera um dos seus grandes nós a serem ainda desatados, num espetáculo cênico com dança, que é, de longe, o melhor exemplo de fenômeno de alta temporalidade, tudo isso somava-se em um indicativo promissor. Mas, dessa vez, o resultado exponencia certas fragilidades já presentes em outras criações (em Domésticas, especialmente). Renata se debruça sobre o dia-a-dia. Busca a poesia no trivial e faz desta a sua marca. Guia nosso olhar para reolhar aquilo que nos cerca, aquilo que cada um vivencia e, para tal, se apóia em entrevistas e observação. Devolve as falas comuns a um contexto em que elas se transformam em pontuações, em quase sinais de trânsito para a sensibilidade: às vezes abrem passagem, às vezes a estancam. E esse processo acontece, basicamente, por intermédio da mistura de texto e movimento que é exatamente o que define o seu percurso. A escolha do nome, Passatempo, e a sua bipartição exposta por meio do tratamento gráfico desta palavra no programa que está sendo distribuído, sublinha que a intenção é a de falar sobre o tempo que passa. Especialmente sobre o passar desse tempo. Idéia que abria para o jogo entre teatro e dança que tanto atrai esta criadora já enfatizando o movimento. E, de fato, cabe à dança a condução dessa dramaturgia - o que a fragiliza irremediavelmente. O elenco está otimamente dirigido, valorizado nas suas singularidades e harmonizado como conjunto. Todavia o material da dança estanca a possibilidade desse espetáculo se transformar naquilo que se espera: ser mais que a soma de suas partes. Porque aqui, as partes são muito eficientes. A cenografia de Daniela Thomas e Patricia Rabbat e os figurinos de Ronaldo Fraga combinam inteligência e beleza nas suas concepções. São ótimos exemplos para quando conceitos bem trabalhados chegam a sínteses poderosas. A iluminação de Ricardo Bueno e a música original de Marcelo Pellegrini atuam mais funcionalmente, desenhando espaços que dizem presente a todas as demandas do que se consagrou como "moderno" em tempos recentes. Mas a dança, que pena, não explora seus interstícios. Resulta numa foto chapada das questões tão delicadas que a obra apenas tangencia. O tempo que passa fica preso nos clichês das imagens que o tratam de maneira trivial. A grande notícia é que a competente produtora Amália Tarallo conseguiu fechar um patrocínio com a BrasilTelecom para o grupo. Assim, tem-se garantido que a pesquisa continua e tem chance de se refinar onde ainda se mostra capenga. Passatempo. Texto e direção Renata Melo. Música Marcelo Pellegrini. Duração: 1h20. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 20,00. Teatro Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. Até 28/4

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