Corea: improvisos clássicos

Pianista lança obra de concerto para quinteto de jazz e orquestra

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

29 de fevereiro de 2012 | 03h11

A caminho dos 72 anos, que completará em 12 de junho, o pianista Armando Anthony "Chick" Corea mantém um ritmo frenético de shows e gravações, que em geral só se encontra nos músicos jovens, em busca de afirmação. Quando faz música, nos dá o melhor dos dois mundos, combinando uma inquietude permanente com uma criatividade que não parece ter limites.

Neste fevereiro, nem deve ter tido tempo de comemorar o Grammy que ganhou no último dia 12, na categoria melhor álbum de jazz instrumental de 2011 com Forever, o excepcional álbum duplo que recria o célebre trio dos anos 70, com Stanley Clarke e Lenny White. Pois quase simultaneamente lançou três outras gravações - todas de elevada qualidade artística: o duplo Further Explorations (selo Concord), gravado ao vivo em 2010 e tributo ao seu eterno ídolo Bill Evans; On Two Pianos, com o pianista clássico romeno Nicolas Economou, registro antigo, de 1982, num festival de Munique, só agora comercialmente lançado; e The Continents, álbum duplo de registros feitos ano passado em Nova York (os dois últimos saem pela Deutche Grammophon).

Destes, sem dúvida o mais ambicioso é The Continents, que leva o subtítulo "Concerto for Jazz Quintet & Chamber Orchestra". Corea reuniu dois grupos fixos de Manhattan, o quinteto de sopros Imani Winds e o Harlem String Quartet, como núcleos principais de uma orquestra de 25 músicos, combinados com um quinteto de jazz incluindo Tim Garland (sax-soprano, clarone e flauta), Steve Davis (trombone), Hans Glawischnig (contrabaixo) e Marcus Gilmore (bateria). A regência ficou a cargo de Steven Mercúrio.

O concerto tem seis movimentos: África, Europa, Austrália, América, Ásia e Antártica. É no mínimo curioso que América seja o mais longo, com 20 minutos, contra pouco mais de 8 minutos para África (será que falou mais alto a tradição da música europeia branca clássica em relação aos tambores africanos?). The Continents foi encomendado pelo Mozarteum de Viena em 2006 para comemorar os 250 anos de nascimento de Mozart, evento que levava o título geral "No Espírito de Mozart". "Para mim", diz Corea, "o espírito de Mozart é fazer música com alegria". Naquele ano, o pianista rodou a Europa em quinze apresentações - mas só no segundo semestre de 2011 viabilizou-se a gravação em grande estilo.

Grande, aliás, é uma palavra que emerge quando se vê tantos músicos díspares envolvidos num projeto desses. Em geral, o resultado costuma ser meio descosturado. Não é o caso deste. Em primeiro lugar, porque Corea não incorre no erro de Gunther Schüller meio século atrás, quando tentou, com sua engessada Third Stream Music, operar uma fusão entre jazz e música clássica. O resultado foi botar uma casaca alguns números menor no jazz, algo na pior linha do nacionalismo sinfônico fazendo trompas solarem "peguei um ita no norte".

Note-se que Corea não usa uma sinfônica tradicional, mas músicos híbridos como os do Imani Winds. Nem o espírito é este, mas sim o da Orquestra Jazz Sinfônica, por exemplo. O refinamento fica por conta de uma escrita orquestral mais elaborada, já que Corea frequentou bastante as vanguardas do free e da música experimental nas últimas décadas. De todo modo, a parte sinfônica é escrita; as intervenções do quinteto são improvisadas, com destaque para as cadências de Corea. O pianista pediu, aliás, que o regente não tentasse moldar uma linha interpretativa; sua função é apenas a de harmonizar esta diversidade.

Na verdade, The Continents constitui ao menos três apresentações musicalmente distintas. Depois de se encantar no concerto, você pode curtir improvisos densos de Chick, numa assimilação madura das linguagens pianísticas modernas, como as de um Bela Bartók, por exemplo, nas onze peças e 31 minutos de Solo Continuum. Ou então embarcar em quatro deliciosas performances estritamente jazzísticas, com o quinteto (destaque para Lotus Blossom e Just Friends) se esparramando em belos improvisos.

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