Cordas em emocionante comunhão

O segredo do quarteto de cordas, escreve o pesquisador francês Bernard Fourier, autor de quatro livros sobre o gênero, é que quatro instrumentos da mesma família, semelhantes e complementares, se associam para compor apenas um. Aí está a dificuldade: precisam soar como um só instrumento de 16 cordas em que varia apenas o registro, do extremo agudo ao extremo grave, a grosso modo. É por isso que o quarteto de cordas é um gênero tão precioso. Para tornar-se musicalmente um, seus quatro integrantes precisam conquistar um estado de comunhão e integração que só o convívio diário de ensaios proporciona, ao longo dos anos. O Quarteto de Cordas Emerson, que completa em 2011 seus 35 anos de existência e toca hoje e amanhã na Sala São Paulo, dentro da temporada 2010 da Sociedade de Cultura Artística, alcançou essa meta aparentemente impossível.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

Tanto que é anunciado, na publicidade, como "o maior quarteto de cordas do mundo". Os "entendidos" costumam torcer o nariz quando se promovem campeonatos desse tipo na música clássica. Mas por que não? Se imitássemos o comportamento apaixonado dos torcedores de futebol, quem sabe o mundinho da música de concerto não teria mais chance de aumentar o volume de seus adeptos.

Outro preconceito é o de que apenas os nascidos na Europa - e de preferência na Europa central - possuem no sangue o talento para esse tipo de música. Como bons norte-americanos, os violinistas Eugene Drucker e Philip Setzer, o violista Lawrence Dutton e o violoncelista David Finckel homenageiam no nome o também norte-americano poeta e filósofo Ralph Waldo Emerson. Mesmo assim, fazem música europeia de modo sensacional, irretocável, emocionante. Nesses 35 anos conquistaram todos os prêmios possíveis; oito Grammys clássicos, honrarias por todo o planeta e contrato exclusivo de gravação com a Deutsche Grammophon.

Em São Paulo, o repertório é previsível: inteiramente europeu. Hoje, Mendelssohn (Quarteto n.º 5), o incrível Quarteto n.º 6 de Bela Bartók e o Quarteto n.º 14, de Beethoven, seu opus 131 - este forma no bloco visionário de seus cinco últimos quartetos, decisivos para a evolução da música nos dois últimos séculos. Amanhã, Mozart (o atrevido Quarteto K. 465, "das dissonâncias"), Shostakovich (o maravilhoso Quarteto n.º 8, Opus 110) e Beethoven (repetição merecida do Quarteto Opus 131).

Se você não puder assisti-los ao vivo - e olhe que eles dão show: tocam em pé e Drucker e Stezer alternam-se tocando as partes do primeiro e do segundo violino, numa atitude inédita no mundo dos quartetos de cordas -, pode consolar-se com sua última gravação para a Deutsche Grammophon, um formidável álbum triplo lançado em 2010 dedicado ao compositor checo Antonín Dvorák (1840-1904).

É um duplo tributo: às raízes norte-americanas e ao modo europeu de se fazer grande música, pois Dvorák dirigiu por três anos, entre 1892 e 95, o Conservatório Nacional de Nova York, com o milionário salário anual equivalente a US$ 300 mil de hoje, bancados pela milionária Jeanette Thurber.

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