Cordas de aço

Inezita Barroso ganha tributo em caixa com discos que comprovam ser dela o nome mais importante da música regional do País

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2012 | 03h09

Só sobrou a cabeça do tecladista. E não foi por falta de aviso. Assim que sentiu cheiro de teclado no palco, Inezita fechou o tempo. "Mas o que é isso?" "É um teclado, dona Inezita." Ela sabia o que era um teclado. O sangue subiu. Ali, nada de teclado, guitarra, baixo elétrico, bateria. Sanfona? De vez em quando. Nada contra os músicos, mas Inezita Barroso já havia percebido há tempos que só fazendo cara de rottweiler para não deixar a viola sumir do mapa. "É melhor desaparecer com esse teclado daqui, ou eu desapareço do palco." E, então, um produtor olhou para quatro pés de café plantados em umas latas e salvou o programa. "Pode deixar comigo, dona Inezita." Quem assistiu ao Viola Minha Viola transmitido direto de Itapira no ano 2000, no interior de São Paulo, viu Inezita Barroso, Nalva Aguiar, Sérgio Reis e a ponta da cabeça de um tecladista que tocou o tempo todo escondido atrás de quatro pés de café.

Guardiã de uma cultura inteira? "Não, eu sou é uma boba", diz em seu apartamento com jeitão de casa de campo no bairro de Santa Cecília, centro de São Paulo. Ela olha para a caixa com seus seis primeiros discos lançados entre 1955 e 1961, com faixas bônus retiradas de discos de 78 rotações que chegam até 1962, e fica saudosa. "Bons tempos." São álbuns remasterizados, sob assinatura do pesquisador Rodrigo Faour, com alta qualidade de áudio e alguns caprichos. O encarte traz para cada faixa comentários generosos da própria Inezita. O primeiro disco funde os álbuns Inezita Barroso, de 1955 (cinco anos depois de começar sua carreira), com Lá Vem o Brasil, de 1956. Aos 30 anos, em 1955, Inezita está pronta. Vozeirão, vibrato firme, canta metade das músicas com orquestra regida por Hervé Cordovil e outra metade com regional. Eram os dois lados de Inezita que iriam surgir antes mesmo de inventarem a bossa nova, o iê-iê-iê, a Tropicália e Zezé Di Camargo.

Modismos nunca foram generosos com as violas. Quando chegavam era para sufocar mais ritmos que ela mesma ajudou a catalogar. Chegaram um dia falando em música 'sertaneja' e Inezita, de novo, fechou o tempo. "Criaram isso porque ficaram com vergonha do termo caipira. Sertanejo é uma figura do Nordeste, não de São Paulo. Por acaso você vai para o sertão de Jundiaí?" Em seus anos de Viola, ela viu de tudo. Quando preciso, tirou dinheiro do bolso para trazer caboclos mais humildes para São Paulo.

Nada que a espante muito. Inezita nasceu em uma casa na Barra Funda em um domingo de carnaval, enquanto passava em sua porta o Cordão Carnavalesco Camisa Verde. "Nasci ouvindo marchinha paulista." Aos 7 anos, começou a andar na contramão. Garotinha no meio de barbados, amigos de seu avô, esperava a chance para sua 'apresentação' na grande casa da Rua Conselheiro Brotero. O velho a colocou na mesa da sala para cantar para os coronéis que jogavam baralho. E ela cantou um tango daqueles de letra bem indecente. "Isso é música de cabaré!" Fuzuê armado, tiraram a menina dali. Uma tia a socorreu: "Não fica triste, vou te arrumar uma professora de violão." Ponto para a tia.

Mais ou menos. Violão era instrumento de vagabundo, mas era o que ela queria. A mãe sofreu. Mulher decente tinha que se casar com farmacêutico ou advogado. Nas fazendas da família, as primas não saíam da casa-grande. Inezita pulava a janela para ver os colonos tocando viola. "Deixa eu tocar?", pediu. "Mexe com isso não, menina não toca viola." "Ah, deixa?" Jogaram um instrumento em suas mãos e ela mandou de prima Boi Amarelinho, história triste de fazer peão abrir o berreiro. O dono da viola não acreditou.

Nos anos 60, montou em um jipe para dirigir até a Paraíba, onde gravaria um filme sobre a Guerra do Paraguai. No caminho, dirigindo por dois meses, registrava tudo o que via e ouvia. Sem gravador, escrevia as notas nas pautas musicais. Em Salvador, cismou em testar a tração nas quatro rodas de seu carro e o colocou para escalar as escadarias da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. No Espírito Santo, quis treinar a pontaria. Pegou a espingarda, mirou em um urubu no céu e pum! O bicho caiu agonizando ao seu lado. "Nunca mais, meu Deus, que trauma." No interior da Bahia, viu um homem cantando algo e começou a anotar. Quando estava no meio, parou um caminhão e o motorista quis saber o que a moça fazia ali. "Esse velho não tá com nada, a senhora tem que ouvir é a Rádio Nacional do Rio de Janeiro." E aumentou o volume do rádio. Inezita perdeu a segunda parte da cantiga.

Ao voltar, queria fazer um projeto com toda a riqueza que havia recolhido mundão afora. Bateu em oito portas diferentes, entre emissoras de rádio e TV. Nenhuma se abriu. Inezita fez uma fogueira e jogou sobre ela todas as anotações. O violão, ela quebrou. Foi sua única derrota em 86 anos de viola.

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