Riccardo Gangale/AP
Riccardo Gangale/AP

Coragem e superação

Mario Vargas Llosa comenta a saga do irlandês Roger Casement e sua luta pelos direitos humanos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2011 | 00h00

Quando se preparava para o lançamento de seu mais recente romance, em outubro do ano passado, o peruano Mario Vargas Llosa foi surpreendido pela conquista do Prêmio Nobel de Literatura. Assim, O Sonho do Celta, que chega agora às livrarias brasileiras, ganhou uma aura especial. E, o que antes seria uma tradicional turnê de lançamento, transformou-se em uma carregada agenda de eventos.

Na verdade, foi uma feliz coincidência, pois O Sonho do Celta, apesar de revestido pelo gênero de "romance histórico", traz em sua essência os principais preceitos humanistas do escritor peruano. O livro acompanha uma figura real, Roger Casement (1864-1916), poeta e revolucionário nacionalista irlandês que, como cônsul do Reino Unido, atuou em diversos países africanos onde, especialmente no Congo belga (à época governado pelo rei Leopoldo II), revoltou-se com o abuso dos direitos humanos contra os nativos.

Casement também trabalhou como diplomata em Santos, Pará e Rio de Janeiro, e ainda na bacia de Putumayo, no Peru, onde novamente denunciou a violência praticada por empresas de extração de borracha. Ao relatar tais irregularidades, ele passou a valorizar a liberdade e, por conta dessa crença, voltou-se contra seu próprio governo, apoiando a independência da Irlanda.

Encarcerado em um presídio de segurança máxima em Londres em 1916, depois de ter participado da Revolta da Páscoa, Casement foi acusado de traição pelo governo inglês, julgado e condenado à morte. Se cinco anos antes ele fora condecorado Cavalheiro, nos dias finais viveu abandonado e difamado.

Llosa descobriu a figura de Casement ao ler uma biografia de Joseph Conrad que, por sua vez, citava a trajetória do irlandês no Congo como fundamental para a escrita de uma de suas obras-primas, O Coração das Trevas. Fascinado pela trajetória de Casement, Llosa aprofundou-se em pesquisas que o ocuparam durante três anos até iniciar o novo romance.

O livro fala essencialmente sobre coragem e superação. Também sobre como "certas circunstâncias desumanizam os homens até transformá-los em monstros", como afirma o escritor. E, a partir das atitudes ufanistas de Casement, Llosa aproveita para também tratar dos dois lados da moeda do nacionalismo, seja a face mais terrível (a que leva ao subjugo), seja a benéfica (que incita movimentos separatistas).

Em entrevista ao Estado, realizada por e-mail, Mario Vargas Llosa trata desse assunto e da necessidade extremada que tem o homem de lutar pela liberdade. Foi apoiado nesse mote, aliás, que ele enfrentou momentos delicados, como sua recente passagem pela Feira do Livro em Buenos Aires. Como o escritor criticara o governo da presidente Cristina Kirchner, intelectuais governistas pediram o cancelamento do convite ao autor, que seria a estrela máxima do evento.

A solicitação foi mantida, Llosa marcou presença e arrancou aplausos ao afirmar que "sofremos muito por causa das verdades absolutas".

O SONHO DO CELTA

Autor: Mario Vargas Llosa

Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman

Editora: Alfaguara (392 págs., R$ 47,90)

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