Cora Coralina, o final de um poema

'Pessoa mais importante de Goiás', para Carlos Drummond de Andrade, escritora morreu aos 95

Rose Saconi, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Há 25 anos

A escritora e poetisa Cora Coralina morreu em 10 de abril de 1985, aos 95 anos de idade, em Goiânia. Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas começou a escrever aos 14 anos, mas seu primeiro livro só foi publicado em 1965, quando tinha 75 anos. Poemas de Becos de Goiás e Estórias Mais foi sua primeira obra. Depois se seguiram Meu Livro de Cordéis, em 1976, e Vintém de Cobre, em 1984.

Vaidosa como mulher, Cora Coralina não gostava de revelar a idade. Isso ficava por conta da família. Ela apenas comentava: "Posso dar umas dicas. Casei em 1910, vivi 45 anos em São Paulo, tenho quatro filhos, 15 netos e 29 bisnetos e comecei a escrever antes dos 15."

Mesmo depois dos 90 anos, sua memória e imaginação permaneciam intactos. Lembrava com lucidez seu começo literário. "Sempre achei uma beleza a palavra poetisa. Quando comecei a escrever não tinha estudos nem leitura, apenas o imaginário, que era bem distante do comportamento das moças da minha época. Quando nasci, as famílias estavam empobrecidas com a libertação dos escravos. Moças casadoiras eram as mais modestas e trabalhadeiras. Eu era pobre e gostava de ler, portanto era marginalizada. Tinha medo de não me casar, apesar de tudo."

Com o tempo, o medo de não se casar ficou para trás e finalmente ela se tornou mulher de um advogado paulista que, segundo ela, não havia se contaminado pelos preconceitos goianos. Assim, mudou-se para São Paulo e começou a lutar para publicar seus primeiros versos.

Reconhecimento. Cora Coralina ? para Carlos Drummond de Andrade, "a pessoa mais importante de Goiás" ? recebeu em 1982 o Troféu Jaburu, concedido pelo Conselho Estadual de Cultura e, em 1984. o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano. Ainda em 1984, entrou para a Academia Goiana de Letras.

"O Brasil perdeu um de seus maiores valores culturais", lamentou o governador de Goiás, Iris Rezende Machado. "Ela foi uma expressão da mais pura poesia e sua obra e exemplo representam contribuição da alma goiana ao patrimônio espiritual do Brasil", descreveu o ministro da Cultura, José Aparecido de Oliveira.

Em Vitória, a escritora Marina Colasanti declarou: "Parece heresia alguém dizer que o falecimento de Cora Coralina não representa uma perda na literatura brasileira. Ela realizou um trabalho ao longo de sua vida, não só frutífera, como muito longa." Na opinião de Marina Colasanti, "Ela recebeu tudo o que queria da vida."

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