Cor total

Rubem Ludolf e Eduardo Sued, mestres da pintura, expõem na cidade e reafirmam a vocação construtiva da arte brasileira

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

Dois mestres da pintura, os veteranos Rubem Ludolf e Eduardo Sued, de 78 e 85 anos, respectivamente, mostram em São Paulo obras recentes que reafirmam não só a vocação da arte brasileira para o construtivismo como o papel fundamental de ambos em sua história - Ludolf é um dos últimos remanescentes do Grupo Frente (1954), pioneiro da abstração geométrica no País e pedra fundamental do movimento neoconcreto. Sued é um fiel seguidor dessa tendência desde sua primeira individual, em 1968. Hospitalizado após a abertura de sua exposição Diálogos, no último dia 9, no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, Ludolf concedeu uma entrevista exclusiva ao Estado da clínica onde está internado no Rio, em que lembrou sua associação com o movimento concreto e falou de projetos futuros. Sued, que expõe no Centro Universitário Maria Antonia obras produzidas entre 1998 e este ano - a maior parte inédita -, conta como sua pintura se estruturou nos anos 1970, aproveitando as contribuições neoconcretas sem opor razão e construção à intervenção subjetiva, expressiva.

Além dos mestres, três outros discípulos da escola construtivista expõem simultaneamente em São Paulo, Cassio Michalany e Elizabeth Jobim, ambos na Estação Pinacoteca, e Rodrigo de Castro, na Galeria Millan. Michalany, aos 61 anos, mostra pinturas e relevos em madeira que desenvolvem uma ideia de 1991, o das permutações de cor, em que telas retangulares são unidas para formar uma única pintura de estreitas relações pictóricas. Nelas, as faixas cromáticas se articulam ao trocar de posição e interagir com o espaço em que são expostas, reconfigurando-o. De certa maneira, é o que também se passa na exposição de 15 telas de Rodrigo de Castro, 55 anos, filho do escultor -também construtivista - Amilcar de Castro, e na instalação Em Azul, de Elizabeth Jobim. Nesse imenso painel, a artista carioca de 53 anos, aluna de Eduardo Sued, conjuga formas geométricas irregulares (como as das telas minimalistas de Ellsworth Kelly) para criar um diálogo com a arquitetura local.

As exposições desses cinco artistas comprovam que a pintura construtivista, por ironia, encontrou no Brasil - país marcado pelo barulho e pela confusão visual -, um porto seguro para se desenvolver. Parte desse quinteto de pintores até tentou um caminho mais expressivo, mas acabou por retomar a trilha dos pioneiros construtivistas russos (Rodchenko, Malevitch) e holandeses (Mondrian e Theo van Doesburg, fundadores do De Stijl em 1917, considerado "o mais puro dos movimentos de arte abstrata").

Rubem Ludolf, arquiteto de formação, lembra de outro artista importante em sua formação, o alemão Josef Albers (1888-1976). Ele levou para os EUA, em 1933, toda a sua bagagem como professor da histórica Bauhaus, influenciando os americanos que viriam a criar o abstracionismo hard edge (anos 1950/60) - pintura caracterizada pela radical transição entre campos cromáticos. Albers era aficionado pelo quadrado, considerado a mais perfeita entre as figuras geométricas. Ludolf, idem. "É incrível, mas organizei uma exposição chamada Homenagem ao Quadrado, que posteriormente descobri ser o título de uma série de telas em que Albers explorava interações cromáticas", lembra. Albers começou a série em 1949. Ludolf, na atual exposição do Gabinete de Arte, mostra telas em que se destaca justamente o arranjo concêntrico de quadrados, como na tela reproduzida nesta página.

Mas, ao contrário de Albers e dos primeiros construtivistas que rejeitavam o acaso, temendo a contaminação de seus projetos por gestos voluntariosos, Ludolf experimentou uma fase - a da Tramas, nos anos 1970 - em que se deixou seduzir pela abstração informal, até voltar como o filho pródigo à casa da geometria rigorosa. Foi uma volta triunfal não só para a pintura. Como arquiteto paisagista do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), atividade que desempenhou entre 1954 e 1990, Ludolf espalhou nas rodovias de Norte a Sul do país a beleza que aprendeu com as cores e as formas geométricas.

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