Cor é tema central de exposição no MAM-SP

A política de valorização do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo acaba de ganhar um importante reforço: um ciclo de exposições temáticas, que abordam a coleção de diferentes pontos de vista com o objetivo de desvendar ao leitor as riquezas normalmente escondidas na reserva técnica do museu. A primeira das oito mostras, será aberta amanhã ao público, tem como eixo principal a questão da cor na pintura. Não se trata de uma seleção estereotipada, na qual predominam os tons intensos e vibrantes normalmente associados ao País.Tadeu Chiarelli, que até o fim do ano passado era curador geral do museu e que desenvolveu esse projeto ainda em sua gestão - a idéia desse ciclo de palestras começou a ser formatada em 1999, mas só agora conseguiu um patrocinador, o Deutsche Bank -, optou por uma leitura bastante particular. Nas 15 telas da exposição predominam as obras em tons baixos, com uma grande presença dos vermelhos. E na curta trajetória traçada pela exposição, o público terá a oportunidade de sentir como a pintura evoluiu da paisagem mais tradicional ao uso formal e autônomo da cor.No início está aquela que é a obra mais antiga da coleção, Paisagem, pintada em 29 por Quirino da Silva, ao lado de Canindé (1937) que, segundo o curador, estaria entre as mais belas pinturas de Francisco Rebolo. "Nas duas você repara que a cor estava a serviço da descrição da paisagem, porque a pintura estava a serviço disso, mas você já sente uma certa vontade, um certo desejo de buscar a autonomia da cor", explica Chiarelli.Logo em seguida há um trio de peso e bastante diversificado: Maria Leontina, Tomie Ohtake e Hélio Oiticica: nos três temos em comum, além do uso de tons rebaixados de vermelho, uma liberdade de formas que ainda remete - de maneira bastante sutil - à idéia de paisagem. "A cor aí está acima da descrição, faz referência à natureza, mas são fundamentalmente abstratas."A soberania absoluta da cor chega com Paulo Pasta, Cássio Michalany, Tuneu, Barsotti e Carlos Zílio, dentre outros. Entre esses artistas que tem a cor como instrumento de criação por excelência, podemos encontrar duas vertentes. Na primeira estariam aqueles que associam às pesquisas cromáticas a busca de uma certa gestualidade, o uso de uma vibração contida, como vemos em Vermelho, de Wakabayashi. Na outra ponta estão os trabalhos mais contidos, em que a presença do traço não tem grande importância.Coube a um artista jovem , Rodrigo Andrade, fechar a exposição. E não a toa com uma obra cinza e marrom. Como diz o curador no texto do catálogo, sua obra "sintetiza de forma mais econômica a desconstrução do espaço ilusório da pintura como tema que percorre os 70 anos compreendidos pela mostra. Com o mínimo de elementos de significação em sua composição, Andrade transforma em espaço o campo cinza do quadro e em figuras as suas pinceladas. É pintor, tela e cor, nada mais".A essa exposição - que ficará em cartaz por dez dias na sala menor do museu, mas em seguida será transferida para o espaço do MAM no Shopping Villa-Lobos - seguem-se outras sete leituras. Dentre os temas selecionados estão questões como a leitura pela arte do século 20 dos gêneros tradicionais da pintura (retrato, natureza-morta e paisagem), a forma de o artista brasileiro refletir a sobre a metrópole ou ainda as diferentes formas de encarar a questão da identidade nacional."O ciclo tem um caráter didático, no melhor sentido da palavra", diz o curador, que também está envolvido no outro grande projeto de divulgação do acervo do MAM. É ele quem comanda a realização de duas importantes publicações, a serem lançadas em dezembro próximo: um catálogo geral da coleção do museu e um livro que investiga mais a fundo 300 obras selecionadas, de 270 autores diferentes. "Vários artistas e várias obras estarão sendo apresentados ao público pela primeira vez", promete.A Cor na Arte Brasileira. De terça, quarta e sexta, das 12 às 18 horas; quinta, das 12 às 22 horas; sábado, domingo e feriado, das 10 às 18 horas. R$ 5,00. MAM. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 3, tel. 5549-9688. Até 30/9.

Agencia Estado,

21 de setembro de 2001 | 17h37

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