'Cor e Cultura: um tema em dois tempos

Livros discutem a questão cromática na história da arte e entre pintores brasileiros

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2012 | 03h07

A cor foi um tema permanente de discussão na obra do historiador inglês John Gage, morto no mês passado, aos 73 anos. Só nos anos 1990 ele lançou dois livros fundamentais sobre o tema, Colour and Culture (Cor e Cultura, 1993) e Colour and Meaning (Cor e Significado, 1999). Esta semana chega às livrarias um estudo mais recente de Gage, A Cor na Arte (Editora Martins Fontes), publicado originalmente na Inglaterra há seis anos. Trata-se de um abrangente ensaio sobre a cor na arte ocidental até o começo deste século. E ele chega justamente na semana em que a Editora Cobogó coloca nas livrarias Pintura Brasileira Século XXI, panorama com 160 obras de 33 artistas nacionais, que será lançado hoje, às 19 horas, antes de um debate, na Livraria da Vila. O que se vê no livro ratifica a suspeita do falecido John Gage: para estudar a cor na contemporaneidade, é preciso olhar para a arte não europeia.

A cor, para o historiador, era fundamentalmente um problema psicológico. Ele, portanto, não poderia deixar de examinar o advento de um fenômeno interessante na arte contemporânea: a retomada do simbolismo das cores num contexto algo diferente do modernismo de Kandinski e Matisse. No panorama da pintura brasileira deste começo de século, as experimentações cromáticas dos pintores mais jovens estão distantes de associar (de forma simbólica) cores ao poder constituído, como se fazia na Idade Média, ou até mesmo dar uma interpretação teosófica a elas, como fariam Blake ou Kandinski. No entanto, é inegável o uso da cor como metáfora nas telas da nova geração de pintores brasileiros - entre outros, as paulistanas Ana Elisa Egreja, de 29 anos, e Mariana Palma, 33, o maranhense Thiago Martins de Melo, 31, o brasiliense Rodrigo Bivar, 31, e o carioca Bruno Dunley, 28, quase todos trabalhando em São Paulo.

John Gage, em A Cor na Arte, dedica um capítulo inteiro à suspeita de que o simbolismo das cores "nunca deixou de ser irredutivelmente local e contextual". E ele recorre ao escultor indiano Anish Kapoor, que faz uso exuberante da cor, quando fala de uma seleção cromática que tem muito também de valor metafórico - além de formal - ligado ao cinzento contexto inglês. Por trás do papel de parede matissiano que cobre as telas de Ana Elisa Egreja revela-se uma tentativa de superar a cromofobia predominante na "cor negativa" do modernismo americano que tanta influência exerceu sobre os adeptos brasileiros da "hard edge". De certa forma, o Brasil faz agora um desvio de rota da arte americana para voltar ao território europeu - e "reler" Matisse, obviamente -, deixando para trás a máxima de Ad Rheinhardt - a de que a cor "cega" e produz efeitos alienantes.

Ex-aluna de Paulo Pasta - o mestre de muitos pintores que estão no livro, como Rodrigo Bivar, Marina Rheingantz a Bruno Dunley -, Ana Elisa Egreja não teme as cores fortes nem o ornamentalismo, chegando mesmo a flertar com a narração literária, domínio natural do simbolismo cromático. Em suas telas, a cor funciona como uma ferramenta retórica a serviço da parábola, quase o mesmo caso da pintura de Bivar. Ambos contam histórias, mas Egreja sustenta um discurso alegórico e, por razões pragmáticas, reforça a já excessiva presença de elementos com uma abordagem surrealista de cenas bizarras, como um lobo vestido em pele de cordeiro ou macacos invadindo uma sala tipicamente matissiana. Parece o fim do ascetismo oriental que marcou a pintura americana desde a década de 1940, conduzindo a arte dos EUA às pinturas cinzentas de Jasper Johns nos anos 1950 e às pinturas negras de Ad Rheinhard nos anos 1960. Egreja é uma afirmação tropical do policromatismo, favorecida pelo êxito (comercial) da pintora carioca Beatriz Milhazes.

Naturalmente, nem todos os pintores selecionados pelos organizadores Isabel Diegues e Frederico Coelho para Pintura Brasileira Século XXI embarcaram na folia cromática. A geração anterior construiu sua sintaxe com menos elementos e de forma nada ruidosa - aí incluídos Paulo Pasta, Cássio Michalany e Sérgio Sister -, explorando os efeitos da cor sobre a forma e justapondo tonalidades afins. John Gage, aliás, conclui seu livro A Cor na Arte falando justamente da inquietação sentida por muitos artistas contemporâneos por causa dos excessos cromáticos cometidos em nome da arte. Paulo Pasta passou de uma paleta moderada para um cromatismo vibrante nas últimas telas, mas elas não dialogam com a arte dos ex-alunos, particularmente porque estão distantes da voluptuosidade cromática tropical e mais próximas do comedimento europeu.

Gage fala, no último capítulo de seu livro, sobre as mudanças na sensibilidade cromática japonesa no pós-guerra, analisando a interação entre linguagem e percepção - ainda pouco explorada. A cor, na arte, diz ele, é um fenômeno cultural, "tanto quanto em qualquer outro campo da atividade humana". O que entendemos como cor, conclui o historiador, "é algo essencialmente psicológico". Seurat, segundo ele, tem mais a ver com a psicologia do que propriamente com o fenômeno da luz, defende o autor. Difícil não lhe dar razão.

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