'Copa Hotel' vai reabrir as portas na 2ª temporada

Com nova direção e roteiristas, programa mantém aguçado seu olhar sobre o inflacionado Rio da pré-Copa e Olimpíada

CRISTINA PADIGLIONE / RIO, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2013 | 02h18

Fechado pela prefeitura por falta de segurança e higiene no 13.º episódio de sua primeira temporada, o Copa Hotel se prepara para reabrir as portas no canal GNT a partir de 30 de setembro, quando estreia a segunda safra da saga de Fred (Miguel Thiré). Bravo resistente à especulação imobiliária que acomete o Rio de Janeiro nessa véspera de Copa do Mundo e Olimpíada, o personagem insiste em resgatar o decadente hotel herdado do pai, contra a vontade do irmão almofadinha.

Na prática, o endereço que serve de locação ao hotel, visitado pelo Estado durante as gravações da 2.ª temporada, fica bem acima do solo de Copacabana, fincado no topo do Alto da Boa Vista. Com fachadas e ângulos variadas, o gigantesco espaço já foi sede de escola e convento. Preserva parte do belo piso e de azulejos antigos, mas, em condições muito deterioradas, o que deixa o Copa Hotel da ficção no chinelo no quesito decadência. Cenas não só do hotel, mas também do hospital onde trabalha Maria, personagem de Maria Ribeiro, foram feitas lá.

Em compensação, o expediente de elenco e equipe foi compartilhado com a vizinhança de macacos-prego, que, uma vez alimentados, passavam a atrapalhar as gravações com seus ruídos. E também com borrachudos - muitos - provenientes da rica vegetação local. Foi nesse contexto que encontramos nosso protagonista, Miguel Thiré, agora de cabelos submetidos à máquina 2.

Se o rapaz que voltou de Londres para enterrar o pai parecia meio fora do eixo na 1.ª temporada, há a promessa de alguém novamente familiarizado com o jeitinho carioca e esse Rio de Janeiro onde todo mundo acha que vai ficar rico. A direção-geral mudou de mãos - de Mauro Lima para Vicente Amorim, que divide a direção dos episódios com Johnny Araújo - e os roteiros, idem, de João Paulo Cuenca para David França Mendes e Pat Lopes. A crítica ao deslumbramento da cidade maravilhosa diante dos grandes eventos esportivos, no entanto, se mantém afiada. E alguém contestou essa visão?

"Não vi ninguém reclamar", atesta Miguel, ainda surpreso com a repercussão da série de um canal fechado. "Isso é das coisas de que eu mais gosto na série. A gente fala de todo um lado de Copacabana, do jeitinho carioca, do suborno, da sujeira, da malandragem. E muito desse Rio hoje tão capitalista, por conta desse período pré-olímpico."

Morador do bairro do Humaitá, Miguel também morou em Londres, como seu personagem, mas só por um ano, o que não promove o choque vivido na ficção, em que o herdeiro do Copa Hotel passou 13 anos fora do País. "Londres é uma cidade fria. Quando cheguei de volta, foi muito parecido com o Fred: você se dá conta de quanto o brasileiro acha que ser cidadão não é cuidar do espaço do outro. A gente tem o desejo de que o outro preste um favor pra gente, e não o contrário."

Anti-herói. No olhar de seu intérprete, Fred é um "anti-herói", alguém que fracassa nas primeiras tentativa de sexo com duas belas mulheres - cada uma a seu tempo, bem entendido - e que não encontra sucesso em nenhuma iniciativa. "Acho que a primeira temporada é sobre um personagem completamente fora do seu eixo. Ele tem uma enorme regressão, digamos, volta a todos os seus sentimentos de adolescência, da culpa por ter passado tanto tempo longe do pai e o pai ter falecido, o que faz com que tenha esse apego de não querer vender esse hotel de jeito nenhum, o que seria lógico: por mais que ele tenha apego àquilo, é uma roubada financeira e é uma roubada pra ele."

A equipe da Pródigo, produtora da série, passou dois meses gravando no Alto da Boa Vista. Mas a Copacabana real virá mais à tona nessa etapa, com cenas gravadas no próprio bairro. Autores do argumento, Giuliano Cedroni e Tatiana Roza prometem mais realismo e menos fantasia na nova fase. "O hotel sofreu uma reforma, maquiado por fora e cheio de problemas por dentro, assim como o Rio de Janeiro", cita Cedroni.

Com alguns poucos novos personagens, o elenco mantém Maria Ribeiro e Fernanda Nobre, que fecham o trio com o protagonista, Felipe Rocha, o melhor amigo, além de Verônica Debom, Luca Bianchi, Paulo Verlings, Natasha Stransky e Zezé Motta, entre outros.

Com 13 episódios na 1.ª temporada e mais 13 agora, Copa Hotel vai parar até na sala de aula. Ao menos um professor da Casa de Artes de Laranjeiras, a CAL, solicitou que Miguel Thiré guarde alguns episódios para serem apresentados aos alunos. É seu pai, Cecil, que não costuma passar a mão na cabeça do filho à toa. "Eles são bastante críticos", atesta Miguel, em relação ao pai e a avó, Tônia Carrero, "mas fazem uma crítica construtiva". "O tempo vai passando e eles vão ficando mais babões, a gente também cresce".

Embora nunca tenha tido aula com o pai, Miguel assegura que Cecil é seu mentor no estilo de pensar a interpretação, um modo meio Stanislavski de ser, ou "um desdobramento" do método. Só não sabe se o pai quer as cenas de Copa Hotel para dizer aos alunos "é assim que se faz" ou "esqueçam isso". "Isso eu não sei", ri.

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