Copa & cozinha

Ainda não será desta vez que vou vestir uma camisa amarela e sair por aí. Também não me vejo de apito, corneta, caxirola e muito menos vuvuzela. Mas é certo que a partir da próxima quinta-feira, entre amigos, não me faltará disposição para saltar do sofá, se para isso o time do Felipão der motivos.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2014 | 02h06

Só não prometo ver tudo. Não tenho paciência para uma partida inteira de futebol. Como em tudo na vida, prefiro os melhores momentos. Desossados, aqueles 90 minutos costumam render um nadinha de carne, ou até nenhuma. Moro entre o Pacaembu e o Parque Antártica, poderia ir a pé, mas faz 12 anos que não entro num estádio. A última vez foi com a Marta e o Marcos, em Barcelona, para ver um Brasil e Catalunha; maravilha de espetáculo o Camp Nou lotado, mas não me pergunte quanto foi o jogo.

Já contei que sou cruzeirense desde os 7 anos. Meu pai me levou a um Cruzeiro x América e me encantei com a camisa azul. Foi uma escolha fashion e nunca desbotou. Sempre gostei mais dos goleiros, ainda quando indefensáveis. Tentei ser goleiro, mas não segurei. Não sei distinguir um corner de um escanteio, nem dizer o nome de um só craque do meu time - mas, astrônomo fiel, vivo de olho nas minhas cinco estrelas, e se não brilham, fico jururu. De quatro em quatro anos, experimento uma ereção cívico-futebolística - e eis que uma vez mais é chegada a hora.

Se pudesse, iria torcer sob o teto generoso de meu irmão Otávio e da cunhada Nísia, em Minas Gerais. Nunca estive lá numa Copa do Mundo, mas estou informado de que é programa especialíssimo. Tudo o que você eventualmente precisa desossar é algum assado. Naquela casa, me contaram, a cozinha da Copa é temperada pela imaginação da Nísia, eterna aprontadeira de bem-vindas novidades.

Uma delas, em parceria com o Luiz Horta - ele mesmo, o refinado connaisseur da boa mesa e do bom copo -, surgiu às vésperas da Copa do Mundo de 1986. Que tal preparar algum prato da culinária de cada um dos países que o Brasil vai enfrentar?, propuseram eles, dispostos a jantar os adversários em mais de um sentido. E assim tem sido, sem falta, desde aquela copa (vencida pela Argentina, lembra?) em que a França nos jantou nas quartas de final. Nem o fuso horário cruel da Copa de 2002, no outro lado do mundo - Coreia do Sul e Japão -, fez arrefecer o pique culinário-ludopédico da Nísia, que se saiu muitíssimo bem com cafés da manhã ou almoços pós-jogo.

Na era pré-internet, dava trabalho garimpar na culinária de países para nós mais estrangeiros, e não ajudava nada o fato de um deles se chamar Camarões. Da cozinha de Camarões, aliás, na Copa de 1994, a Nísia não conseguiu saber nada e se conformou com "uma triste feijoada". Quando enfrentamos pela primeira vez a Costa Rica, em 1990, ela penou até descolar uma decepção aparentada com o nosso mexidinho.

Felizmente já existia internet em 2006, e nossa amiga pôde recorrer a um grupo de estudos sobre a culinária africana na universidade americana da Virgínia para saber o que dá ganas de comer em Gana. Veio a sugestão de um pitéu de nome Ali, cozido de frango defumado ainda mais apetitoso quando se acompanha de Arroz Bolinha, preparação pastosa em que entram queijo e agrião ou rúcula. Dupla tão boa que acabou incorporada ao receituário da família. Dia desses me animo a fazer Ali aqui.

Ao longo de sete Copas do Mundo, a imaginosa chef já escalou gostosuras como blinis com caviar e sopa borsch (o adversário, claro, era a Rússia), moussaká (Turquia) ou bifes com pera (Coreia do Sul). Na cozinha da Suécia ela foi pescar, seduzida pelo nome, Tentação de Janson, um gratinado de anchovas e batatas cuja degustação foi precedida de goles de acquavit.

Na Copa de 2006, quando pela primeira vez encaramos a Croácia, a Nísia preparou uma carne cozida com noz moscada e ameixa e servida com nhoque. Ganhamos por 1 a 0, mas a Pašticada não agradou. Na próxima quinta-feira, teremos outra vez Croácia no cardápio. Um ponto já está decidido: a toalha de mesa terá o mesmo xadrez da camisa dos adversários. Resta escolher o que vai fumegar sobre esse alvirrubro tabuleiro. A mestre-cuca aceita sugestões, desde que não seja a Pašticada, com esse indigesto circunflexo invertido em cima do S.

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