Convite ao Jogo da Literatura

Seguindo com ironia uma lógica autoimposta, novela do francês Georges Perec explora o lado lúdico da ficção

Silviano Santiago, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

Ao se querer moderna, a arte ocidental se transformou numa moradia que tolera e abriga casais inusitados. Em meados do século 20, o casamento da música erudita com a pesquisa em matemática levou o artista cúmplice a nela pedir refúgio. Logo em seguida, o casal passou a flertar com as artes plásticas. Tome-se como exemplo Iannis Xenakis (1922-2001), compositor grego, e Victor Vasarely (1908-1997), pintor francês.

Leia-se primeiramente a partitura de Metastaseis (1953), de Xenakis. Em vez de poder acompanhar a melodia numa folha em que notas musicais se inscrevem em pautas paralelas, o ouvinte terá diante dos olhos uma visão espectral da composição musical. A peça fora idealizada como aplicação ao som de modelo sugerido pelo cálculo das probabilidades e pela teoria dos conjuntos. Assista-se, em seguida, ao curta-metragem assinado por Xenakis, em que as notas musicais aleatórias se interpenetram nas formas geométricas de Vasarely, pintor que deu origem ao movimento cinético.

A aliança da música erudita, das artes plásticas e da arquitetura ocorre na Feira Mundial de Bruxelas, em 1958. No projeto para o decantado Pavilhão da Philips, Xenakis estendeu a mão a Le Corbusier e ao músico Edgard Varèse. Naquela ocasião, os idealizadores do projeto afirmaram que ''nossa civilização gradativamente mecanizada batalha a favor de uma nova harmonia no futuro''.

A mensagem de otimismo harmônico não foi secundada pelos artistas que casaram a literatura com a matemática em 1960, talvez por aquela ganhar forma a partir de signos linguísticos, que têm como referência obrigatória a realidade cotidiana. Pelo recurso ao divertimento (amusement) no ato da composição e no processo da leitura, a matematicidade da palavra literária contradiz o pensamento utópico gerado no antigo Pavilhão da Philips.

Em 1960, um grupo de escritores europeus se reúne em torno duma mesa no restaurante Le Vieux Gascon, em Paris, e funda o movimento conhecido como OuLiPo (sigla para Ouvroir de Littérature Potentielle, oficina de literatura potencial). Alguns dos geniais participantes da oficina, já falecidos, são conhecidos do leitor brasileiro: Raymond Queneau (Zazie no Metrô), Ítalo Calvino (Se um Viajante numa Noite de Inverno) e Georges Perec (A Vida: Modo de Usar).

Como adiantamos, os oulipianos adotavam uma atitude brincalhona em relação à pesquisa em matemática se aplicada à prosa e à poesia e questionavam a estética neorrealista dominante e o engajamento político proposto por Jean-Paul Sartre. Eles lembravam que as modernas teorias matemáticas, de que é exemplo a teoria dos conjuntos, nasceram do que antigamente se chamavam as "matemáticas divertidas", postas em prática entre nós por Malba Tahan em O Homem Que Calculava (1949). Daí o interesse maior da literatura oulipiana ser o jogo com vistas às virtualidades matemáticas no uso da linguagem fonética.

Referem-se eles a um duplo jogo. Primeiro, ao jogo intenso que o autor joga consigo mesmo, incentivado por constrangimentos (contraintes) determinados pela obediência da escrita literária a um modelo matemático. Ao fabular e escrever à sombra duma coação exemplar, o artista gera uma ''forma oulipiana''. Referem-se, em segundo lugar, ao jogo que o leitor joga em total liberdade e prazerosamente com o texto literário às suas mãos. A leitura lúdica se acende e ganha intensidade própria ao se confundir com a habilidade arlequinal do escritor.

Acaba de ser publicado no Brasil um dos bons volumes da Biblioteca oulipiana. Sua leitura pode servir de exemplo à teoria exposta acima e encantar o leitor novato. Trata-se de A Arte e a Maneira de Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento, de Georges Perec (1936-1982).

Escrita em 1968 para a revista Ensino Programado, a novela se escreve a partir dum organograma, reproduzido à abertura do livro. A estrita obediência do romancista ao esquema modelar é o fundamento da prosa. Seu personagem segue passo a passo as etapas protocolares por que tem de passar e que tem de ultrapassar para pleitear aumento de salário junto ao chefe. O esquema foi retirado duma formulação da matemática econômica, que nos induz a crer que equilíbrios sucessivos levam a soluções possíveis para qualquer problema. Em 1968, o ensino e a burocracia estatal francesa se modernizavam nas ruas de Paris e ao ritmo do ensino programado.

Na escrita da novela, sucedem-se hipóteses (o chefe pode estar e pode não estar no escritório), alternativas (de duas uma, se não estiver no escritório, o funcionário terá de esperá-lo, ou ficar à espreita da sua chegada) e conjecturas (se o chefe estiver no escritório, ele lhe poderá dizer isso ou aquilo).

Ao seguir ao pé da letra o caminho em dobradiças proposto pelo organograma e fazer progredir sua narrativa em termos de jogo, acaso, ironia e diversão, Perec dispensou a pontuação clássica. Não há vírgula ou ponto no seu texto. Há o fluxo interminável da prosa a armar hipóteses, alternativas e conjecturas. A pontuação é oferecida ao texto pela respiração do leitor, que pode estar ou não estar programada.

Caso a parada respiratória do leitor não coincida com a vírgula e o ponto ideais nas frases escritas a partir do organograma, não há problema. Haverá sucessivos enjambements poéticos. Pela desobediência às fronteiras da frase, o leitor chega a um dos pontos altos da prosa e da poesia oulipiana. Na combinação aleatória de palavras e até de sílabas, ele desentranhou as alegrias cerebrais do nonsense. A novela se confundirá, então, com a fala numa peça de Eugène Ionesco.

Silviano Santiago é escritor, crítico literário, autor, entre outros, de herança e uma literatura nos trópicos (publicados pela rocco) e colunista do sabático

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