Convite à arte de um Nobel

Contos policiais de William Faulkner funcionam como entrada para sua genial ficção

Celso Mauro Paciornik, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h09

Lance Mortal é uma coletânea de seis histórias policiais que o norte-americano William Faulkner (1897-1962), Prêmio Nobel de Literatura de 1949, publicou nesse ano.

Considerado um gênero menor, a literatura policial teve, no entanto, uma importância extraordinária nos séculos 19 e 20 na disseminação do hábito da leitura em todo o Ocidente - e como fonte caudalosa de ideias, histórias e roteiros para o cinema e os quadrinhos. A experiência de um Nobel com o gênero naturalmente conta a favor da narrativa policial.

Ambientados nos fictícios condado de Yoknapatawpha e sua capital, Jefferson, plantados por Faulkner no Estado de Mississippi - e onde transcorre a maioria das sagas familiares dos romances que fizeram o renome de seu criador -, os contos têm como elemento de unidade, além da locação, as figuras do promotor do local, Gavin Stevens, que atua como o detetive, e seu sobrinho, interlocutor e narrador de algumas histórias.

Embora bastante desiguais em sua confecção, os contos conservam os traços marcantes da prosa e dos artifícios narrativos de Faulkner, com seu gosto pelas digressões, que encantam, seduzem, e por vezes testam a paciência do leitor. Na primeira história, em particular, Faulkner utiliza um recurso instigante e feliz que já havia empregado em outra obras: o de criar um narrador que se confunde com a comunidade ficcional e, com suas observações, comentários, rumores e preconceitos vai dando forma e sabor à trama.

O derradeiro conto - mais extenso que os demais e que dá título ao volume - tem como contraponto da ação uma partida de xadrez entre Gavin e seu sobrinho - o que justifica o título, ao menos no original, Knight's Gambit, ou gambito do cavalo. Cabe esclarecer que um gambito é uma jogada em que o enxadrista sacrifica uma peça para obter vantagem futura. A leitura do conto, com certeza, esclarecerá o paralelo entre o título e o enredo ao leitor que dispuser dessa sucinta informação.

Sem se comparar em complexidade e experimentação aos grandes romances que fizeram de William Faulkner uma figura superlativa da literatura americana e universal, como O Som e a Fúria, Luz em Agosto e Palmeiras Selvagens, entre outros, estes contos policiais podem ser uma porta de entrada para quem não conhece a obra do autor - e um regalo para seus antigos leitores, saudosos do mágico condado.

CELSO MAURO PACIORNIK É TRADUTOR DO ESTADO, VERTEU PARA O PORTUGUÊS LUZ EM AGOSTO, DE W. FAULKNER (COSAC NAIFY)

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