Conversas de porta de igreja

Domingo de manhã e as pessoas foram chegando para o café no hotel mostrando indícios da festa da noite anterior. Um grupo de mais ou menos 80 amigos de Ricardo Ramires se deslocou para Goiânia por conta do casamento dele com Fabiana. No avião, na ida, uma senhora passou mal, a comissária-chefe pediu um médico, apareceram dois, um jovem e um senhor. O jovem era bonitão, cheio de charme, e a mulher, ao meu lado, não aguentou: "Acho que vou passar mal também!" Na volta, comentávamos que muitos poderiam passar mal, porque havia a bordo uns 20 médicos de diferentes especialidades, amigos do Dirceu Ramires, pai do noivo, que tinha levado seu grupo, todos formados na primeira turma da Santa Casa de São Paulo. Gente divertida e bem-humorada. Porém, ninguém passou mal.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2010 | 00h00

No café da manhã, sonados, lembrávamos as conversas de espera na igreja de São João Bosco, enquanto a noiva não chegava, misturados todos os padrinhos e convidados. Alguém puxou assunto, voltando à infância e às latas de Toddy. De repente, todos, de diferentes idades, tinham uma lembrança ligada ao achocolatado. Acho a palavra achocolatado curiosa, um neologismo. Quanto eu era pequeno, dizia-se simplesmente chocolate e nada mais. Uma das mais jovens à mesa dizia que ela era pequenina e a mãe comprava uma lata de Toddy enorme. A lata vinha para a mesa, todos se serviam, e então a mãe tampava e colocava sobre uma cadeira. Era o sinal para a menina sentar-se sobre a lata, que servia de banquinho, para que ela alcançasse a mesa.

Márcia, minha mulher, tinha outra memória. As latas do achocolatado traziam soldadinhos de chumbo dentro. As pequenas, apenas um. As maiores, vários. Então, o que eles faziam, ela, a irmã Carla e o irmão Eduardo, conhecido como o Bom? Todas as manhãs, tomavam, tomavam, tomavam, se encharcavam de Toddy, a lata logo acabava, o pai comprava outra, contente porque as crianças estavam se alimentando bem. Quando a nova lata chegava, Márcia e Eduardo abriam, despejavam tudo numa panela, recolhiam os soldadinhos de chumbo, devolviam o pó à lata. Iam brincar. No dia seguinte, Toddy, Toddy, Toddy, para a lata terminar rapidamente. O pai nunca desconfiou.

Veio então à minha cabeça, mais velho que sou (minha infância foi nos anos 40), que meu pai alternava, uma lata de Toddy, depois um pacote de um chocolate meio amargo, mais barato (seria o do padre?). Assim que o Toddy chegava à mesa, meu irmão Luis e eu abríamos sôfregos a fim de apanhar o cupom que dava direito a uma minixícara. Colecionávamos cupons até completarmos o miniaparelho de chá, que era um primor. Parecia mais coisa de menina, mas era tão bonito o aparelhinho, que ninguém resistia. Por anos aquele conjunto de chá existiu em nossa casa, depois sumiu, ninguém sabe onde foi.

As latas de Toddy tinham outra utilidade em casas pobres. Bastava levá-las ao funileiro (ainda existem?) e ele as transformava em uma bela caneca para o leite da manhã, para beber ou ferver água. Nós meninos apanhávamos as latas, fazíamos dois furos, colocávamos um arame que servia como alça e com uma vela dentro, tínhamos lanternas para brincar à noite nas ruas escuras.

Mais tarde apareceram outros achocolatados, o Vic Maltema, que desapareceu, o Ovomaltine, sofisticado e caro. Quando o Ovomaltine chegava ao fim da lata, empedrava e era necessário colocar leite quente e bater bem, até tudo se dissolver. Primeira vez que vi Ovomaltine na vida foi em 1963, quando passei pela Suíça e era um caipirão. Havia uma espécie de lanchonete numa pracinha em Montreux, experimentei, gostei, tomei quatro. Não enjoei por pouco. Já Márcia tem outra recordação, a lojinha junto à fábrica, na Via Dutra. A família, a caminho de Arraial do Cabo, tinha aquela parada obrigatória. Hoje, ao que eu saiba, somente a lanchonete Stop vende o Ovomaltine batido e doce.

Ali, na manhã goianense, lembramos de Donata e Alê que observaram tudo atentamente, afinal estão a um mês do casamento deles. Ficamos de olho para ver se Renata, loira e linda, se empenharia pelo buquê, ela nem se importou. Nossa ansiedade era devido ao check-out, estávamos apreensivos, a demora era imensa. Mas ainda houve tempo para Juliana contar a história de um tio muito engraçado, que tinha um costume, o de fuçar casas dos amigos e parentes. Chegava para visitar e fazia um roteiro que incluía todos os cômodos da casa. Abria armários, guarda-roupas, cômodas, criados-mudos, gavetas, numa curiosidade incontida. Fuçava, olhava, mexia em cuecas, meias, calcinhas, sapatos, olhava tudo, nada escapava. Uma vez, na casa de um amigo não tão íntimo, ele deu a escapulida à noite, observou tudo. Foi dormir. No café da manhã, ouvi marido e mulher conversando a ela reclamando que há um tempão não encontrava determinado objeto. O que teria acontecido? Perdido, levado por alguma empregada? O quê? Um mistério.

Então, o tio de Juliana entrou na conversa:

- O que a senhora procura é assim, assim?

- Sim? Como sabe?

- Está no alto do seu guarda-roupa, bem ao fundo, embrulhado num papel azul com um barbante dourado.

Já levantando, lembramos todos que na igreja tinha sido uma bela cerimônia, casamentos tocam todo mundo, mesmo os solteiros renitentes e empedernidos, Fabiana estava linda, Ricardo emocionado, claro. Na hora do buquê, as mulheres acharam que houve parcialidade, proteção. Fabiana jogou o buquê direto nas mãos da cunhada dela. No jogo do amor vale tudo. Comidos os bem-casados, fomos para o hotel e ali rememoramos, prometendo, cada um de nós, que, ao voltarmos ao Hotel Nobile, chegaremos à recepção com uma hora de antecedência para o check-in e duas horas para o check-out. Pensar que cheguei às 13 e só me deram um quarto às 16 horas. Mas o casamento valeu, as histórias também. E a costelinha ao molho agridoce e o risoto de pequi valem uma ida ao La Place, o restaurante do hotel

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