Conversando com a luz

Autobiografia de Tadao Ando, lançada agora no Brasil, mostra sua preocupação com a natureza

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2010 | 00h00

O livro Tadao Ando, Arquiteto (Editora Beï, tradução Jefferson José Teixeira, 372 págs., R$ 70) pode ajudar que o Brasil conheça melhor um dos maiores arquitetos vivos. É a autobiografia muito bem ilustrada desse mestre japonês nascido em Osaka em 1941, de formação autodidata, autor de projetos que muitos peregrinam para ver como a igreja protestante em Kasugaoka, Ibaraki, perto de sua cidade natal. No livro, Ando fala de suas admirações, como Le Corbusier e Gaudí, e de sua preocupação com a aproximação entre natureza e humanidade, já que em seus trabalhos a luz natural sempre é determinante da composição. Na entrevista a seguir, feita por email, fala também de criadores vivos como Niemeyer e Frank Gehry, rejeita o rótulo de minimalista e analisa seu diálogo entre Ocidente e Oriente.

Sobre a Igreja da Luz em Kasugaoka, o jornalista Yuki Fuchigami disse que cria "um espaço espiritualmente enriquecedor, e é para isso que serve a arquitetura". O sr. concorda?

A Igreja da Luz foi um projeto com severas restrições de custo, mas a comunidade protestante estava transbordando de ansiedade pela criação de "algo bonito". É impossível fazer prédios apenas pelo poder solitário do arquiteto. Só é possível criar uma arquitetura verdadeiramente poderosa e inspiradora quando a paixão dos trabalhadores, o entusiasmo do cliente ou da comunidade e a criatividade e imaginação dos autores do projeto se unem na mesma vontade. E esse foi o caso na Igreja da Luz, onde ficou provado que mesmo nos tempos atuais os prédios podem ser realizados não apenas por razões econômicas, mas também por entusiasmo e fé. Criar espaços espiritualmente ricos que estimulam a alma das pessoas, por meio de uma fórmula extremamente simples, é um tema importante, que sempre me interessou.

Há uma combinação de simplicidade e complexidade - os ângulos e aberturas, as texturas, a atmosfera do espaço todo. É

ao mesmo tempo um lugar inquieto e tranquilizante. Foi essa a intenção?

Na intenção de expressar a paixão dessa comunidade, usei a luz na forma de uma cruz para misturar a presença de Deus ao coração dessas pessoas. Quando elas se reúnem e abrem seu coração uma às outras, emoções profundas ganham vida. Também acho que a arquitetura não acaba em si mesma. Ela se manifesta por uma rede de relações com o ambiente, o clima, a história, etc. No caso dessa igreja, são mais de 20 anos envolvido com seu desenvolvimento. A cada acréscimo, fiz o máximo para considerar os prédios existentes e suas relações. Pretendo continuar desenvolvendo e ajustar a composição toda para superar o encanto já existente no lugar. Todas as partes são intencionalmente colocadas para realizar um diálogo harmonioso entre elas.

Seu trabalho normalmente é descrito como "minimalista", mas ele não trabalha tanto com repetições e modulações. O sr. não acha que as pessoas usam adjetivos como "minimalista" apenas por não terem visto muitos ornamentos?

É comum que rotulem alguém como "minimalista" apenas porque o design não tem ornamentos. Eu não chamo minha arquitetura de minimalista. Sempre tenho como objetivo que meus prédios não sejam interpretados apenas pelo design de seus espaços sem adorno, mas que as pessoas entendam que atrás desses projetos há sempre a intenção de comunicar mensagens ou propostas para uma crítica social.

Em seu livro de memórias,

o sr. descreve o momento em que encontrou um livro sobre Le Corbusier em sua cidade

natal, Osaka, e o fascínio que sentiu com seus prédios e projetos. Mais tarde, o sr. se livrou dessa obsessão, como um aprendiz que supera a influência do mestre?

Eu tinha 20 anos quando encontrei esse livro. Fiquei encantado pelas imagens à primeira vista. Não bastou ficar olhando; comecei a copiar os desenhos, como que possuído. Na mesma época, vi uma imagem da capela de Ronchamp (Notre Dame du Haut). Ao ver a cena com aquelas pessoas se reunindo embaixo daquelas formas livremente desenhadas, um sentimento forte se apossou de mim: arquitetura não serve para nada além de aproximar as pessoas e criar espaços onde elas possam interagir e dialogar. No entanto, a influência de Le Corbusier ficou restrita ao pensamento da arquitetura como instrumento para reforma social, assim como sua postura profissional, não especificamente a conceitos ou projetos. Nunca pensei nele como um mentor.

Sua arquitetura às vezes é descrita como fusão da tradição zen com o modernismo ocidental. O sr. concorda? Em quase todo seu trabalho há sempre uma vista da natureza do lado de fora e uma preocupação com as entradas de luz. Seria essa a maior influência da tradição japonesa?

Visitei muitas arquiteturas no Ocidente e absorvi conhecimento das experiências nesses espaços. Ao mesmo tempo, frequentemente visitei templos famosos e tradicionais do Japão em Kyoto e Nara e, embora não fosse um estudo sistemático, tentei capturar sua composição espacial e seus detalhes ao meu modo. Desde aquele período meu trabalho se concentrou no tópico "qual deveria ser a relação entre natureza e humanidade por meio da arquitetura". Aprendi as diferentes interpretações nas culturas orientais e ocidentais, depois procurei minhas próprias respostas e expressei esses pensamentos em meus prédios. Nunca usei intencionalmente a ideologia zen; se as pessoas veem esse tipo de influência em meu trabalho, deve ser a manifestação natural de minha identidade espiritual japonesa, da cultura contida em meu sangue.

Ser um arquiteto autodidata, segundo o sr. mesmo, significou maior esforço para aprender e criar. Ao mesmo tempo, não lhe deu mais liberdade, menos compromissos acadêmicos ou ideológicos?

O caminho autodidata não foi uma escolha minha. Por razões financeiras da minha família e sobretudo por minhas reduzidas habilidades acadêmicas, não pude progredir no modo regular de ensino. Embora se possa achar que é um caminho para a liberdade intelectual, a realidade é que se trata de uma batalha persistente com a solidão e a dificuldade. Eu não tinha colegas com quem discutir sobre arquitetura. O máximo que podia fazer era lutar com os livros, visitar os lugares e conversar comigo mesmo. Mesmo assim, se olho para trás, sinto que valeu a pena, pois foi graças a essas experiências solitárias que consegui força para sobreviver dependendo apenas de mim mesmo.

Em seu livro o sr. diz que sua primeira casa não era muito funcional. Qual a importância de ser funcional, de ser útil no cotidiano de uma pessoa, família ou comunidade?

Seja numa residência, seja num museu, espaços verdadeiramente ricos não evoluem exclusivamente dos propósitos funcionais. Por meio das discussões com os clientes, é importante saber a "questão essencial" de cada projeto. Baseado nisso, deliberar sobre as possibilidades vai definir a expressão de cada prédio. As exigências funcionais mudam rapidamente com o tempo, mas um espaço arquitetônico que expressa o que se queria construir é extemporâneo, transcendental. Se eu tivesse feito simplesmente uma casa funcional para meus clientes na "Row House", em Sumyoshi, talvez ela nem existisse mais. Mas foi porque propus criar um espaço que expressasse a "essência" de seu estilo de vida que eles vivem na mesma casa até hoje, quase 35 anos depois.

O sr. conhece o Brasil e sua arquitetura? Qual sua opinião sobre Niemeyer?

Acho que Niemeyer, com Lúcio Costa, fez um trabalho de mestre na construção de Brasília, estabelecendo uma imagem moderna do Brasil, simbolizando a energia e a esperança do País. Gosto especialmente do fato de que todos os prédios são bastante monumentais, mas ainda assim desenhados e relacionados mutuamente. Acho que o verdadeiro valor desses prédios reside no simbolismo, na criação de arquiteturas únicas, nunca antes vistas, para a capital de um país que olhava para o futuro.

Nas últimas duas décadas vivemos uma arquitetura muito inventiva, quase exuberante, como a de Frank Gehry. O sr. gosta disso? Acha que a computação está transformando a arquitetura?

O trabalho de Gehry é repleto de criatividade original e deu novos horizontes para a arquitetura. O poder criativo, especialmente em seu caso, é admiravelmente combinado com a tecnologia de computação atual. Prédios que jamais tinham sido vistos antes são agora realizados um depois do outro. Eles verdadeiramente garantem uma alegria de viver para os usuários e visitantes. Gehry merece toda a admiração que recebe.

No final do livro o sr. menciona a economia global e as possibilidades de "simbiose" entre as culturas. Se Tadao Ando fosse convidado para criar uma casa particular ou prédio público no Brasil, tentaria dialogar com referências locais? E como evitar lidar apenas com clichês como a floresta, o calor, etc.?

Onde quer que eu desenhe novos projetos, é a interpretação dos elementos citados acima e o uso pleno do poder dormente da terra (o "genius loci" da terra) que me permite criar espaços espiritualmente ricos, com uma arquitetura que só existe naquele lugar específico, naquele período específico.

QUEM É

TADAO ANDO

ARQUITETO

Nascido em 13 de setembro de 1941 em Osaka, no Japão, Tadao Ando foi, entre outros, caminhoneiro, boxeador e desenhista industrial, até que descobriu a vocação para a arquitetura. Em 1969, criou seu escritório. Em 1995 recebeu o Pritzker, o Nobel da área, e doou os US$ 100 mil do prêmio para vítimas do terremoto de Kobe.

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