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Conversa fiada

Nas melhores escolas aprendíamos um pouco de biotipologia, que é a ciência das constituições, dos temperamentos e caracteres dos seres humanos

Sergio Augusto, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2022 | 03h00

Quando o ensino nestas paragens era batuta, nas melhores escolas aprendíamos até um pouco de biotipologia, que é a ciência das constituições, dos temperamentos e caracteres dos seres humanos. Por considerarmos a terminologia classificatória inventada pelos mestres da matéria algo pedante e difícil de memorizar, continuamos praticando no dia a dia uma taxionomia vira-lata, à base de designações nada científicas, porém deliciosas e ao alcance de todos, como “careta”, “caxias”, “cdf”, “mala”, “patricinha” etc.

Até que o poeta Manuel Bandeira veio nos salvar “cientificamente”, com ajuda da gnomonia. 

Excêntrica classificação de pessoas, bichos e plantas, sacada por Jaime Ovalle, a gnomonia trabalha com cinco categorias ou tipos padrões: os parás, os dantas, os mozarlescos, os quernianos e os onésimos – cada qual representado (ou protegido) por um anjo ou gnomo. 

São parás os indivíduos extrovertidos, dinâmicos, brilhantes, que onde chegam vencem. Parás porque geralmente vinham do norte os principais nomes da cultura e da política. Apesar de gaúchos, Getúlio Vargas e Elis Regina eram genuínos parás. 

Os dantas são aqueles que desprezam o sucesso material e procuram viver em estado de pureza, entre as forças da inteligência e da sensibilidade. É a mais rara das cinco categorias. Gandhi certamente era, e Jesus, sem dúvida alguma. 

Se você é um sentimental, que se emociona à toa e chora vendo filme, enquadre-se entre os mozarlescos, denominação que nada tem a ver com Mozart, mas com uma angelical figura mantida em segredo, pois, segundo Bandeira, sobre ela “paira injustamente uma vaga atmosfera de ridículo”. 

Os quernianos são os de mais fácil identificação: impulsivos, desabridos, impetuosos, estouvados. Chaplin, por exemplo, era querniano, mas Carlitos, definitivamente, mozarlesco. 

Por fim, os onésimos; em muitos aspectos, os antípodas dos mozarlescos: severos, reservados, superciliosos além da conta, criaturas frias cuja presença pode gerar constrangimento. 

Bandeira cita Machado como um onésimo perfeito, esquivando-se de uma autoqualificação, ao contrário de outro célebre entusiasta da gnomonia, Vinicius, que não só se dizia mozarlesco como não perdia uma oportunidade de brincar de gnomonia com amigos. 

Bandeira era mozarlesco, com fortes elementos de pará, já que veio do Recife para vencer no Rio. 

Caetano? Além de pará, tem sua porção mozarlesca, a contrabalançar seus ocasionais rompantes quernianos. Idem Glauber Rocha. Paulo Francis era onésimo com elementos quernianos, mistura altamente perigosa se não se é um Paulo Francis. 

Brinquem à vontade. 

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