Conversa de bambas

Nos 80 anos de Elton Medeiros, convidamos seu parceiro Paulinho da Viola para falar de samba

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2010 | 00h00

bsp;     Elton e Paulinho. Tantas parcerias, como Onde a Dor Não Tem Razão  

 

 

Nos anos 60, num certo Bar Gouveia, na Travessa do Ouvidor, coração do centro do Rio, Pixinguinha, então com 60 e poucos anos, volta e meia se via rodeado por jovens compositores. A turma do samba o cultuava como o gênio maior da música brasileira, e costumava indagá-lo sobre o "tempo antigo". "Uma vez, estávamos eu, o Mauro Duarte e o Sérgio Cabral e começamos a perguntar como era o João da Baiana, o Donga, a turma da idade dele. Pixinguinha, com aquela paciência de santo, fez uma pausa e disse: "Cada vez que eu olho ao meu redor, vejo menos gente da minha geração". Era uma observação profundamente sincera e saudosa."

Quem conta é Elton Medeiros, que hoje completa 80 anos. Melodista e letrista dos mais admirados do universo do samba, sobreviveu a boa parte de seus parceiros: Cartola (com quem fez o hino O Sol Nascerá (A sorrir/ eu pretendo levar a vida), Zé Keti (Mascarada), Mauro Duarte (Maioria Sem Nenhum), Cacaso (Meu Carnaval), Maurício Tapajós (Não tem Mais Jeito, também com Hermínio Bello de Carvalho), Jair do Cavaquinho (Meu Viver, com Kleber Santos).

No entanto, tal qual Pixinguinha, ele não vive de revolver o passado; tampouco chora os que se foram. "É claro que sinto falta de um papo com os amigos, mas isso é natural. A gente nasce, vive e morre", justifica, com a serenidade dos que sabem das coisas.

A música de Elton está viva nas casas de shows da Lapa, cantada por jovens que poderiam ser seus bisnetos. No repertório de artistas de distintos calibres, nas rodas de samba, nas coletâneas dos grandes momentos do gênero. E seu parceiro mais constante, 12 anos mais jovem, está junto a ele para celebrá-lo (embora os encontros hoje sejam espaçados). "Ninguém fez tanta música comigo quanto ele, e ninguém fez tanta música com ele quanto eu", decreta Elton sobre Paulinho da Viola, o Paulo César a quem conheceu novinho na cozinha do Zicartola, o restaurante aberto no mesmo velho centro do Rio por Cartola e sua mulher, dona Zica, em 1963. Era o favorito de músicos e intelectuais.

Memória. Marcado pelo Estado, o bate-papo entre os autores do clássico Onde A Dor Não Tem Razão, entremeado por lembranças de versos e melodias, um se escorando na memória do outro, foi segunda-feira, no Esch Café, tabacaria do Leblon (bairro de Elton) frequentada por Paulinho. Mais cedo, a reportagem conversou a sós com o aniversariante. Ele diz não compreender por que as pessoas se fixam em datas redondas. Amigos acenaram com a possibilidade de produzirem um CD e/ou um show-tributo, mas nada está certo. Se acontecer, será novidade na vida de um artista sempre chamado a homenagear Cartola, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho...

Paulinho chega e a conversa regride quase quatro décadas. Voltamos ao Zicartola e ao momento em que se conheceram. "Cartola disse: "Você precisa ver um garoto que apareceu aí! Ele toca violão certinho e, quando resolve cantar, os sambas dele são bons!" Paulinho interrompe: "Eu tinha dois ou três sambas, vivia repetindo..." E Elton acrescenta: "Mas eram dois ou três sambas bons!"

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