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Conversa com um hermano

"Vocês nos chamam de "hermanos" com ironia?", perguntou meu amigo argentino.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2014 | 02h05

Nem sempre, eu disse. Hermanos significa afinidades comuns. Às vezes, exprime admiração e afeto.

"Que coisa linda", disse Gerardo. "Há uma ponta de inveja nessa admiração? Ou um pouco de ciúme nesse afeto?"

"Depende de cada pessoa", eu disse. "Os brasileiros finalmente descobriram a Argentina. Muitos gostam dos argentinos e admiram Córdoba, Rosário, Mar del Plata, Buenos Aires... A beleza dessas cidades, a escala humana da capital da Argentina, o urbanismo inteligente, a escolaridade do povo..."

"Você está idealizando", riu Gerardo. "Eu e muitos argentinos poderíamos mencionar a vibração e o dinamismo de São Paulo, a beleza do Rio, de Salvador e de tantas cidades brasileiras... O cinema, o teatro, a literatura, a dança. Sem falar da música. Eu, por exemplo, aprendi a língua portuguesa ouvindo canções brasileiras..."

O canto da torcida argentina emocionou Gerardo.

"Esse mar de bandeiras azuis e brancas em pleno Maracanã", exaltou-se meu amigo. "Que maravilha, che. Queria estar lá, vibrando, torcendo. Vai começar o segundo tempo da prorrogação. Agora será o jogo dos exaustos, é como caminhar para o calvário. Vocês passaram por isso: os pênaltis no jogo contra o Chile, o pesadelo contra a Alemanha."

"Tudo isso faz parte do passado", eu disse. "Somos pentacampeões, hermano."

"Mas isso também pertence ao passado", disse Gerardo, aflito, de olho na tela. "A Copa do Brasil foi incrível, mas a Seleção dos nossos irmãos brasileiros me fez chorar... A defesa foi quase surreal."

"Que ironia admirável", eu disse. "Em 111 minutos de jogo vocês perderam três gols feitos. Esse ataque argentino é quase surreal."

Vimos um demônio ruivo disparar pela ponta esquerda e lançar para Götze, que matou a bola no peito e chutou cruzado. Uma parte do Maracanã explodiu, a cantoria argentina silenciou.

"Às vezes futebol é traição", eu disse, não sem tristeza.

"Eso es", balbuciou Gerardo, abatido. "Mas ainda temos sete ou oito minutos."

"Um martírio, meu amigo. Esse silêncio azul e branco, os ponteiros do relógio, essa agonia do tempo que passa..."

"Você pode preparar uma caipirinha?"

"Claro. Com vodca ou pinga?"

"Es igual", disse Gerardo, "com vodca ou pingo a ilusão acabou". "Pinga", corrigi.

"Pinga! Que palavra rara, che. Por que os jogadores alemães estão juntos, em círculo? Batem os pés e apontam para o gramado... O que é isso?"

"É um ritual, Gerardo, uma homenagem aos índios brasileiros. Os alemães passaram um mês no sul da Bahia e aprenderam a dança dos pataxós."

"Comovedor", disse meu amigo, com um tom mais sarcástico que irônico.

"A antropologia também faz parte do jogo, hermano. Os alemães se entregaram de corpo e alma ao Brasil. Jogaram um bom futebol e mostraram que a cultura do outro é importante. Alguns aprenderam um pouco de português, cantaram músicas brasileiras e todos dançaram com os pataxós."

"Bueno", disse Gerardo. "Em 2018, levem um antropólogo para a Rússia. Mas antes contratem um técnico argentino. Sabella, hermano. E troquem a CBF pela Associação de Futebol Argentino. Qué te parece?"

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