Conversa com um clochard

Nas noites do verão parisiense, turistas de todas as latitudes passeiam entre a praça de la Contrescarpe e a igreja de Saint Médard. Nessa área - dividida pela não menos festiva Rua Mouffetard -, as mesinhas dos restaurantes são separadas por meio palmo, de modo que você vê o que os vizinhos comem e bebem e, mesmo sem querer, ouve conversas alheias. Por sugestão de um vizinho - um turista italiano -, optei por uma orelha de elefante, nome popular de um bife à milanesa.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2010 | 00h00

Meu vizinho de mesa era casado com uma professora argelina, ambos moravam em Montreal e passavam as férias em Paris. Talvez entediados pela solidão de turistas, puxaram conversa comigo e com minhas duas amigas francesas. Falaram da beleza de Montreal, da literatura bilíngue do Canadá, e quando a argelina mencionou o nacionalismo do Québec, ouvimos uma voz masculina dizer em francês: sou um jovem sem mãe, sem país...

Não sei se ele era órfão e apátrida, mas não parecia tão jovem. Era um clochard, um dos tantos sem-teto que erram por Paris. Pediu ao garçom um pedaço de baguete com molho de tomate, depois perguntou ao nosso vizinho de onde ele era.

Turim, disse o italiano.

Turim?, riu o clochard. É uma das cidades iluminadas da Itália. Não me refiro à Fiat, que é o farol da indústria italiana. Falo dos poetas e escritores.

Você conhece a obra de algum desses poetas?, perguntou o turista.

O clochard recitou em italiano uns versos, cujo autor nosso vizinho logo reconheceu. Depois disse em alemão umas frases que uma das minhas amigas entendeu, assombrada com a pronúncia perfeita do vagabundo. Ela cochichou: nunca tinha encontrado um clochard que citava de cor e no original Cesare Pavese e Nietzsche. Depois ele disse que era duro viver na rua, duríssimo dormir durante o inverno.

O inverno sem abrigo é o inferno, disse o clochard, abrindo a boca desdentada e soltando um bafo de vinho barato, que se misturou ao ar quente e pesado do verão. Ele nos olhou com tanta tristeza, que eu perdi o apetite e afastei o prato com a orelha de elefante.

Onde você leu a obra desses escritores?, perguntou minha amiga germanista.

Na escola, ele respondeu. E numa biblioteca de Montrouge.

Você fala árabe?, perguntou a argelina.

O árabe vulgar, sim, ele disse. O árabe falado nas ruas de Paris e Marselha... Mas sou incapaz de ler o árabe clássico, a língua de Ibn Quzman e dos grandes poetas da Andaluzia. Vocês sabem, a frustração é um atributo do ser humano... Não sabemos tudo, não podemos conhecer tudo.

Mas você não devia estar na rua, disse o italiano. Quero dizer, morando na rua. Você podia ensinar línguas estrangeiras...

De jeito nenhum, monsieur. Aprendi seis línguas para sobreviver, e não para ensinar ou trabalhar.

Nenhum de nós duvidou.

Mas por que você mora na rua?, perguntou a argelina.

Não há outro lugar para viver, disse o clochard. O albergue é um horror, a gente convive com pessoas sem nenhum valor moral. Não posso alugar sequer um quarto, por isso vivo na rua. Algumas pessoas ainda me dão comida e moedas. No inverno sofro muito, mas quem não sofre neste mundo?

E como você foi parar na rua?

Ele agradeceu ao garçom o pão com molho de tomate e aceitou uma taça de Cahors que o vizinho italiano lhe ofereceu.

É uma longa história, disse o clochard. Vocês têm tempo para ouvi-la?

A noite toda, eu disse, sem consultar os vizinhos e as amigas.

Ouvimos a história, que era de fato longa, e tão longa que sobreviveu à sobremesa, aos queijos, ao café e ao licor. O restaurante já estava fechado e os três garçons italianos, de pé, ouviam a voz do clochard.

E como sua amante morreu?, perguntou minha outra amiga, que até aquele momento não dissera nada.

Nos meus braços, disse o clochard. A maioria das pessoas tem várias histórias de amor para contar. Eu tenho apenas essa, que foi uma verdadeira paixão.

Ele nos olhou, um por um, e disse: não me olhem assim. Só as crianças pobres merecem compaixão. Ainda sobrou vinho?

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