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Fábio Porchat
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Conversa

Eu tava pensando aqui e me veio uma luz. Os políticos brasileiros roubam porque nunca ninguém disse pra eles que não podia roubar, minha gente. Pensa. Tem um prato de brigadeiro na mesa da sua cozinha, você tá com fome, adora brigadeiro, que que você faz? Você come. Se sua mãe briga com você e diz que não podia comer porque ela está guardando para mais tarde o que você fala e com razão? Eu não sabia que não podia comer. No Brasil, o lema sempre foi: aqui se faz, aqui se rouba. Desde sempre, desde os portugueses que nos levaram tudo, do pau-brasil ao ouro, os poderosos se aproveitam da sua posição.

Fábio Porchat, O Estado de S. Paulo

27 de setembro de 2015 | 02h00

Tadinho dos que estão lá agora, eles acharam que era assim que funcionava. Talvez falte uma cartilha, explicando pra todos os que estão no governo o que pode e o que não pode fazer. É só uma questão de conversa. Sei que está na Constituição, mas ela é tão grande que alguns não se deram ao trabalho de ler. E tem gente que acha que a Constituição é que nem a Bíblia, dá para interpretar de várias formas e usá-la em seu benefício. Não é o que tá na Constituição, é o que pode e o que não pode. Então, venho por meio dessa tentar esclarecer algumas questões.

Vamos lá: Não pode pegar dinheiro que não é seu. Mesmo que ache que mereça, não sendo seu, não pode. Dinheiro do imposto das pessoas não é seu. Dinheiro só pode ser seu se for declarado no imposto de renda. Sei que chama dinheiro público, mas é público no sentido de todos nós cidadãos brasileiros e não no sentido de seu, tá? Se o destinado para a saúde for uma verba X, o dinheiro para se gastar na saúde tem que ser X. Isso vale para qualquer outro dinheiro destinado a qualquer outra área.

Levar um por fora, não pode, tá? Caixa 2 não pode. Propina não pode. O avião da FAB pode levá-lo a qualquer lugar se for a trabalho. Para implantar cabelo pode? Não. Para visitar uma tia? Não. Para ir a Miami comprar terno? Não. Emprestar para um amigo? Não. Para ir de férias a Angra? Não. Sempre, antes de pegar o avião, se pergunte: é a trabalho? Se não for, não pode. Ah, mas o terno que compro em Miami é para usar no trabalho... Ei, ei, ei, não pode. A viagem não é a trabalho.

As passagens aéreas que você recebe são para serem utilizadas de casa para o trabalho e depois de volta pra casa. Posso ir com a minha mulher pra Paris, Fábio? Não, deputado, não pode. Se não for usar as passagens, posso revendê-las para pegar o dinheiro pra mim? Não, senador, não pode. Se não vai usá-las, então elas não precisam ser usadas. Mas daí elas vão voltar aos cofres públicos? Isso, fácil, né? Bom, acho que é isso. Qualquer dúvida em relação a pegar aquele dinheiro para benefício próprio a resposta tende a ser NÃO em 99% dos casos. Pense assim: se tiver que perguntar é porque não. Você não pergunta se pode pegar o dinheiro do seu salário para comprar coisas, certo? Certo, porque nem precisa perguntar. Tá vendo, minha gente, é tudo uma questão só de conversa.

A luta contra a corrupção é uma das 17 metas que a ONU lançou essa semana pelo The Global Goals. Eu e o Porta dos Fundos compramos essa briga. Dá uma olhada lá no www.globalgoals.org e espalhe a notícia!

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