Contrastes e sintonias

Em sua nova sede, o Museu de Arte Contemporânea celebra 50 anos de criação com a abertura de duas mostras

MARIA HIRSZMAN, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2013 | 02h13

A cidade vai ganhando aos poucos um novo e promissor museu. Após anos de reforma e de enfrentamento das dificuldades naturais à expansão de uma instituição híbrida e com múltiplas vocações, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) de São Paulo abre aos poucos as portas de sua nova sede. Com a inauguração hoje das mostras Di Humanista e O Agora, o Antes: Uma Síntese do Acervo do MAC, que ocupam o sétimo andar do antigo edifício do Detran, dá-se um passo altamente simbólico, celebrando os 50 anos de criação do museu, consolidando a presença da instituição no Parque do Ibirapuera e oferecendo aos visitantes uma programação que contempla suas principais vertentes de ação: a preservação, a divulgação e a ampliação de um acervo que é ao mesmo tempo tesouro histórico e obra em processo.

Por um lado, a mostra dedicada ao pintor Di Cavalcanti oferece um amplo panorama de um dos artistas brasileiros mais consagrados e o mais bem representado na coleção do museu. Já a exposição que ocupará a grande sala pelos próximos seis meses, exibe uma visão bastante inovadora, contrapondo importantes destaques nacionais e internacionais da coleção - tais como Tarsila do Amaral, Victor Brecheret, Marc Chagall e Giorgio de Chirico - a obras de jovens autores, praticamente inéditas, selecionadas recentemente e muitas delas doadas pelos artistas ao museu. São ao todo 85 trabalhos, que se subdividem um núcleos derivados dos gêneros tradicionais da história da arte, como o retrato, a natureza-morta ou a paisagem.

Realizar uma síntese de uma coleção de cerca de 10 mil obras é tarefa difícil. "Num acervo como o do MAC, o problema não é pôr, mas sim tirar obras", ironiza o curador e diretor da instituição, Tadeu Chiarelli. Felizmente, nos próximos meses outros itens importantes passarão a ter visibilidade, com a inauguração paulatina dos outros andares do prédio, destinados à mostra permanente do acervo.

Logo de imediato se percebe uma clara intenção de fomentar novos olhares e leituras, a partir da criação de novos e ricos diálogos - por meio de contrastes ou sintonias - entre trabalhos. É o caso, por exemplo, da aproximação feita entre o célebre retrato pintado por Amedeo Modigliani em 1919 e a série na qual Albano Afonso sobrepõe imagens suas às de grandes ícones da pintura europeia. Além de realizar uma citação explícita à tela do pintor italiano, a obra ilustra claramente a intenção do curador de destacar a importância de realizar uma permanente releitura crítica dessa tradição. "As obras sempre existem em relação com outras", afirma Chiarelli. "Perturbar e ressignificar verdades consagradas, estas são as funções de uma universidade preocupada com o devir do conhecimento; estas são as funções de um museu de arte contemporânea", defende.

Outros encontros bem-sucedidos entre distintos tempos históricos, linguagens e intenções poéticas se dão ao longo da exposição, como a dilacerante relação estabelecida entre as facas e objetos cortantes reunidos recentemente por Thiago Honório e a série de desenhos em que Flávio de Carvalho registra a mãe agonizante; a interessante sintonia entre obras de caráter mais militante e de denúncia reunidas na última sala da mostra (de autores como Marcello Nitsche, Fernando Piola e Rafael Canogar); ou a aproximação entre A Boba, de Anita Malfatti, e autorretratos de Cindy Sherman. A fotografia, aliás, tem presença significativa na seleção, graças sobretudo à indicação do museu como guardião da Coleção do Banco Santos, situação ainda provisória que aguarda regulamentação da Justiça.

Vale ressaltar que doações e incorporações são centrais na história do MAC. Ele nasce, em 1963, graças à transferência por Ciccillo Matarazzo de sua coleção e daquela do Museu de Arte Moderna (MAM) para a USP. A presença massiva de Di Cavalcanti na coleção também se deve a esse fato, já que seus mais de 500 trabalhos hoje pertencentes ao MAC haviam sido doados pelo próprio ao MAM em 1962, apenas um ano antes de Ciccillo decidir transferir da coleção.

Como o artista mais bem representado, Di foi naturalmente escolhido para inaugurar as exposições monográficas, que se revezarão semestralmente na sala B do sétimo andar do novo prédio. A mostra, organizada pela curadora Kátia Canton, se opõe frontalmente à imagem mais comum do artista, visto reiteradamente como "o pintor de mulatas". "Organizamos a mostra em torno de alguns temas, numa tentativa de ressignificar o Di, mostrando-o como alguém que lutou pelo povo; procuramos destacar o caráter humanista do artista", sintetiza a pesquisadora. Dentre os assuntos contemplados pela seleção de 67 pinturas e desenhos estão as mulheres, a boêmia e a política, aspectos centrais em sua produção.

Apesar da crescente ampliação do espaço expositivo aberto à visitação no novo prédio do Ibirapuera - o que tem levado o público, ainda modesto, a crescer de forma exponencial -, o MAC mantém ainda uma intensa atividade em sua sede no câmpus da USP, onde atualmente está em cartaz mostra dedicada à pintura italiana do período entreguerras.

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