Contraste entre duas realidades

Leite e Ferro, de Cláudia Priscila, tem a coragem inicial de enfrentar um tema muito duro. Suas personagens são presidiárias que têm filhos pequenos e amamentam na prisão.

O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h09

De início é um choque, porque fica difícil conciliar duas realidades tidas como antagônicas. De um lado, aquilo que, no imaginário, é algo quase da ordem do sagrado, a geração de uma nova vida e o cuidado que ela exige nos primeiros meses para sobreviver. De outro, o confinamento, o castigo por algum crime cometido contra a sociedade. A figura da mãe contra o pano de fundo cruel do presídio.

Desse contraste, Leite e Ferro tira sua maior força. Parte, claro, de algo da ordem do real, a convivência da instituição da maternidade com a delinquência e sua penalidade social. Serve, num nível mais profundo, como metáfora da coabitação entre as ordens do sagrado e do profano.

De outro lado, porém, o filme revela a fraqueza crônica dos documentários brasileiros, quando o documentarista se vê enredado no fascínio que desenvolve por seus personagens. As histórias de vida das moças parecem, no mínimo, contraditórias em muitas ocasiões. Talvez um excesso de reverência por sua condição tenha impedido um maior aprofundamento. Daí que o filme passe, em certos momentos, a impressão de superficialidade e mesmo de fraqueza.

Em várias ocasiões, o ensaísta e crítico Jean-Claude Bernardet tem dito que os documentaristas brasileiros se transformam em reféns dos seus personagens. Ainda mais quando são pobres ou de alguma forma oprimidos, ou fazem parte de alguma comunidade marginal. O excesso de respeito constrói um cordão de isolamento em torno deles, impedindo que suas contradições (todos as temos) sejam debatidas. Tornam-se intocáveis.

Leite e Ferro, em que pesem suas qualidades, seria uma ilustração perfeita para essa tese.

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