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Contrastantes

Não se sabe como Alexander Cockburn reagiria ao fato de estar na trincheira de Trump

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

15 de junho de 2017 | 03h00

Christopher Hitchens e Alexander Cockburn eram os dois principais colunistas do semanário The Nation, a mais antiga publicação “de esquerda” dos Estados Unidos. Alternavam-se no mesmo espaço e tinham em comum o estilo brilhante e o fato de serem ambos imigrantes, Hitchens da Inglaterra e Cockburn da Irlanda, o que nunca os impediu de baterem forte na política e nos costumes da sua terra adotada. Mas Hitchens surpreendeu todo o mundo, seus colegas e empregadores da Nation não menos do que seus leitores, apoiando a invasão americana do Iraque e justificando a política externa de Bush e seus belicosos neoconservadores – uma posição que defendeu até a morte, como sabem os que o viram e ouviram na Flip, há alguns anos. Suas opiniões contrastavam tanto com a linha da revista e as expectativas do seu público que ele acabou saindo – não sei se por iniciativa própria ou por sugestão irrecusável. Ficou Cockburn como o principal batedor do Nation.

Mas Cockburn deu uma de Hitchens. Também para a surpresa geral, atacou na sua coluna o que chamou de catastrofistas do aquecimento global, refutando suas teses sobre o efeito do dióxido de carbono produzido pelo homem no clima e comparando o medo sem fundamento que eles espalham com o terror que precedeu o fim do primeiro milênio da era cristã. Naquela época, quem lucrou com o apocalipse anunciado foi a Igreja Católica, vendendo indulgência divina adoidada aos assustados. Segundo dizia Cockburn, quem ganhava com o medo atual era a indústria nuclear, com sua promessa de energia não poluente – ignorando, claro, o risco da contaminação permanente por escapamento radioativo.

A Nation tem dedicado grandes espaços à ameaça do aquecimento global e sido uma crítica feroz dos interesses petroleiros e seu desdém pela questão ambiental. Não deve ter gostado de ser chamada, nas suas páginas, de conivente com uma farsa que favorece as nucleares. Cockburn também já morreu. Não se sabe como ele reagiria ao fato de estar na mesma trincheira com o Trump, que acabou de oficializar o desprezo americano pelo envenenamento do planeta. 

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