Tasso Marcelo/AE
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Contraponto entre 'A Primeira Vista' e 'Monster' marca novos de Enrique Diaz

Diretor também planeja o lançamento de um livro que reúne os dois textos de Daniel MacIvor

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , ENVIADA ESPECIAL / RIO , O Estado de S.Paulo

05 Julho 2012 | 03h12

RIO DE JANEIRO - Não são apenas os bordados da dramaturgia de Daniel MacIvor que atraem o diretor Enrique Diaz. Para além da expertise da estrutura, uma temática o mobiliza: um exame minucioso do espaço que separa cada indivíduo do outro. Mas também do lugar em que essas fronteiras se esvaem. "Existe algo de muito popular nesse universo. Sem medo de tocar em pontos de apelo emocional", observa Diaz.

Espetáculo que marca o retorno de Drica Moraes ao palcos, após um tratamento de leucemia, A Primeira Vista surge como um inventário de afetos. Trata-se da história da amizade entre duas mulheres. Donas de personalidades nitidamente distintas, elas se encontram e desencontram. Tentam contar, cada uma a seu modo, a maneira como esse percurso se deu.

Com duas apresentações agendadas para este mês em São Paulo, a peça também conecta laços afetivos entre as intérpretes e o encenador. Mariana Lima é sua mulher. Drica Moraes, além de amiga há 30 anos, é sua ex-namorada. "O texto surgiu como a justificativa perfeita para esse encontro. Era a melhor maneira de estarmos juntos", considera ele.

Fãs de rock, as personagens de Drica e Mariana montam uma banda. Empunham instrumentos: baixo, guitarra e até um ukulele havaiano. Cantam canções como Come As You Are, do Nirvana. Existe, portanto, uma leveza na maneira de se desenhar esse passado algo doloroso. Um componente de ironia a temperar as fragilidades expostas em cena. "Ele toca em coisas que mobilizam o espectador", considera o diretor. "Fala da maneira como não controlamos as coisas, das perdas, das surpresas. Poderia, com isso, resvalar no piegas, mas escapa pelo humor. Não se leva completamente a sério."

A delicadeza de sentimentos que atravessa A Primeira Vista encontra um contraponto em Monster. "É uma energia oposta. Uma coisa luciferiana. Como se mostrasse o que a gente pode fazer de mau com o afeto", observa Enrique Diaz. Durante a mostra programada para a reinauguração do Teatro Alfredo Mesquita, ele fará uma primeira leitura pública da obra: monólogo em que, além de assinar a direção, também deve atuar. "Não estou me lançando em um monólogo. É uma coisa pequena, modesta. De certa maneira, resolvi fazer porque me encontro nesse universo. Também sou um pouco agressivo, sarcástico. Com muito amor. Mas eu sou."

A exemplo de outras criações de MacIvor, a peça joga com vários planos temporais, fazendo zigue-zagues entre passado e presente. Mais antigo dos textos do autor montado por Diaz, Monster faz parte de uma série de solos que MacIvor escreveu nos anos 1990. Aqui, o dramaturgo potencializa sua experiência pregressa como ator. Entrega a um só intérprete a missão de manipular as vozes de várias figuras: um homem, um casal, um menino. "A peça traz um pouco da herança dele no palco. É uma espécie de stand up com personagens. Insere o público, mas tem uma dramaturgia de ficção", considera Diaz.

A estreia de Monster só deve acontecer em 2013. Enquanto isso, o mergulho na ficção de MacIvor se dá também em outras frentes. Enrique Diaz planeja o lançamento de um livro que reúne os dois textos do autor que já encenou. Também mantém In on It em cartaz, contracenando com Emílio de Mello. (Na primeira versão do espetáculo, o papel cabia a Fernando Eiras.)

In on It propõe à plateia um jogo engenhoso. Mostra uma dupla de atores que prepara uma montagem, ao mesmo tempo em que desvela o que se esconde detrás dessas máscaras. São três planos que se revezam: há a peça dentro da peça, o ensaio para o espetáculo e a relação entre os dois intérpretes, que excede a dimensão profissional. Um rendilhado de pontos de vista, de histórias, de momentos. Calculado e preciso como uma equação matemática. Espontâneo como um encontro. Como um afeto.

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