Contradições de um homem apaixonado

Otávio Martins volta ao monólogo em Córtex, peça sobre as transformações provocadas por um sumiço misterioso

O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2012 | 04h28

A quantidade de montagens envolvendo tragédias gregas no ano passado chamou a atenção do ator e diretor Otávio Martins. "O mais interessante era que os espetáculos traziam uma versão muito moderna do trágico, diferente da pensada pelos autores originais", conta ele que, em conversa com o dramaturgo Franz Keppler, descobriu ali o caminho para um projeto original. "Falamos muito e decidimos que a melhor resposta seria no palco", disse Martins. Nascia Córtex, peça que estreia hoje no Centro Cultural Banco do Brasil.

Trata-se de um monólogo, formato que vinha seduzindo o ator desde que se aventurara sozinho no palco em A Noite Antes da Floresta, de Bernard-Marie Koltès, em 2006. "Córtex é fruto de um processo de trabalho em trio", conta Martins, que convidou Nelson Baskerville para a direção. O trabalho em conjunto foi decisivo para o formato final do projeto. Baskerville, por exemplo, acreditou na necessidade de a peça ser um monólogo. "A história acompanha as tragédias de um homem e, portanto, deveria se concentrar apenas nele", observa o ator.

Considerada uma grande história de amor, a peça é narrada por um homem que tem sua vida transformada após o desaparecimento misterioso de sua mulher. "É a narrativa de um amor visceral e da dor provocada pela ausência", comenta Otávio Martins. Mas, aos poucos, o espectador vai percebendo que está no meio de um jogo de simulações - depois de prestar queixa na delegacia, o homem gradativamente se envolve em uma teia de contradições que o leva a ser o principal suspeito do sumiço de sua esposa. Em sua defesa, ele apenas alega o intenso amor que sentia por ela e o sofrimento causado pela dor de sua ausência.

"A chave está no inconsciente desse homem", conta o ator que, no palco, veste um terno e um tutu, aquele vestido de bailarina, recurso encontrado pela figurinista Marichilene Artisevskis.

"Procurei fazer uma narrativa que invade o cérebro do personagem", afirma Franz Keppler, em depoimento divulgado no material de imprensa. "É como se estivéssemos lá dentro, vendo suas memórias, suas imagens, muitas vezes oníricas e fantásticas, além de suas percepções do mundo e da vida. Isso tudo é ressaltado pela direção do Nelson e pelas projeções em vídeo que, na realidade, são projeções da mente desse personagem, com imagens extremamente fantasiosas."

O conjunto de dúvidas ajuda a embaralhar ainda mais a fronteira que separa ficção da realidade. "É como se fosse um quebra-cabeça, em que cada peça colocada ajuda a formar uma figura que nem sempre é a prevista", afirma Martins.

Para isso, todos os recursos teatrais são utilizados com felicidade. A trilha sonora original, por exemplo, composta por Ricardo Severo, baseia-se na polifonia. Assim, o público não consegue identificar de imediato de onde vem o som, tornando-o também participante da trama. Já a iluminação de Wagner Freire, em que nada é totalmente claro, auxilia a embaçar ainda mais a história, refletindo a confusa mente do personagem principal.

A força criativa do grupo, portanto, é decisiva para criar o clima ambivalente. Por isso, até a reviravolta final, o espectador se questiona: "Será que o homem está mentindo? O que realmente aconteceu com ela? O que realmente aconteceu com eles?"

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