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‘Contrações’ mostra o absurdo em ações cotidianas de um escritório

Espetáculo do grupo 3 de Teatro é uma corrosiva crítica às práticas do mundo corporativo

Maria Eugênia de Menezes , O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2013 | 19h55

Contrações, espetáculo que estreia nesta sexta, 18, pode ser entendido como uma crônica dos nossos tempos. Ou como uma corrosiva crítica às práticas do mundo corporativo. De fato, o texto de Mike Bartlett, um jovem autor britânico que merece sua segunda montagem em São Paulo, é um retrato de contradições contemporâneas do universo do trabalho. A definição está correta. O que não quer dizer que venha a esgotar o universo de questionamentos que a peça pode suscitar.

“Acho que pode ser lido como uma metáfora para muitos relacionamentos, profissionais ou não”, comenta a diretora Grace Passô. “Acredito que esse recorte do mundo do trabalho é interessante porque mostra o quanto esse sistema feroz e cruel do capital influi nas relações entre as pessoas.”

No ambiente de um escritório, Débora Falabella interpreta Ema, uma funcionária. Diante dela está uma diretora de recursos humanos – vivida por Yara de Novaes – que lhe informa sobre uma cláusula específica de seu contrato: ela está obrigada a informar à empresa qualquer relacionamento de viés conjugal que venha a estabelecer com seus colegas de trabalho.

Argumentos são invocados à exaustão para justificar a esdrúxula regra. O bem-estar dos funcionários. A produtividade da empresa. Políticas de planejamento. Ema, então, acaba por ceder. Consente em relatar seu encontro amoroso com um companheiro de vendas. Mas esse será o início de um kafkiano percurso da personagem. De absurdos e absurdos que começarão a sobrepor-se com incômoda naturalidade.

Ao escrever Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt relatava o julgamento, pelo Estado de Israel, de Adolf Eichmann. O livro tornou-se conhecido especialmente por seu subtítulo – Um Relato sobre a Banalidade do Mal. Um conceito que talvez faça sentido se quisermos contextualizar a trama de Contrações. Enquanto observava o grande teatro jurídico montado pelos judeus, o que chamou especialmente a atenção de Arendt foi a figura do carrasco nazista. Eichmann não era um monstro terrível. Era um medíocre funcionário, a serviço do governo alemão, que apenas cumpria ordens. Terríveis, desumanas, deploráveis. Mas, ainda assim, ordens.

Ponto mais interessante do relato da filósofa – ou ao menos o mais oportuno para relacioná-lo ao debate proposto por Mike Bartlett – é seu olhar para a burocratização da vida pública.“Verdades” que vêm normatizar a vida dos cidadãos. Não mais conceitos, opiniões, ideias com origem e enunciador. Mas axiomas impessoais que visam o “bem” comum.

Enquanto criava a montagem, o grupo 3 de Teatro pôde verificar a ressonância do que levava à cena. Ao longo do processo, as atrizes percorreram diversas cidades do interior. “E muitas eram as pessoas que se identificavam com o que estava colocado ali”, aponta Yara de Novaes. “O que existe entre as duas é uma relação de conveniência, que mantém algo maior.”

À medida que aceita ceder à política empresarial, a personagem vivida por Débora Falabella envereda por um perigoso caminho. “A partir de determinado momento, ela não tem mais como sair”, observa a atriz, que realiza seu quarto espetáculo com essa companhia teatral de Minas Gerais. “É uma via de mão dupla. Ela acaba acreditando naquilo.”

Concebida originalmente como uma peça radiofônica, Contrações apoia-se, sobretudo, no que é dito. Quase não há rubricas no texto. Também não existe um subtexto que oriente a construção das personagens. “O que o autor propõe são tempos. Uma elaboração quase musical. Com frases que vão sendo repetidas. Mas que sempre retornam com um novo sentido”, acrescenta Yara.

Na atual versão, as atrizes estão constantemente no palco. Colocadas em um confronto que valoriza os diálogos. Sem deixar de matizá-los, porém, com o olhar da diretora. Reconhecida por seu trabalho à frente de outro grupo de Minas, o Espanca!, Grace Passô constrói o espaço de um escritório onde quanto mais se acirra o conflito, mais fria se torna a temperatura.

Da mesma maneira, a trilha sonora entra com um propósito cênico definido. Não vem trivialmente criar climas. Mas interferir no que acontece. Será assim que Débora, em cima de uma bateria, conseguirá extravasar aquilo que sua personagem não ousa dizer.

Grupo3 de Teatro

Fundado em 2005 por Yara de Novaes, Débora Falabella e Gabriel Fontes Paiva. Suas montagens anteriores são A Serpente, O Continente Negro e Amor e Outros Estranhos Rumores

CONTRAÇÕES

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, metrô Sé, 3113-3651. Sáb., 17h30 e 20 h; dom., 18 h; 2ª, 20 h. R$ 5/R$ 10. Até 9/12.

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