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Contra toda probabilidade

Por que apenas popularidade e competência não serão suficientes para a sobrevivência política da chanceler alemã Angela Merkel

Hans Ulrich Gumbrecht,

26 de maio de 2012 | 16h51

Escrevo estas linhas na Berlim de meados de maio e, ao perguntar aos passageiros de um ônibus ou aos fregueses de um bar daqui, encontramos poucos que não guardam uma imagem elevada de Angela Merkel, a política mais poderosa do país. Mas deve ser ainda menor o número de pessoas que estão certas da reeleição dela para a chancelaria e, além das antigas afinidades ou reservas em relação ao Partido da Democracia Cristã, ao qual ela pertence, o fato mais impressionante deve ser o de um número tão pequeno de cidadãos se importar realmente com a permanência dela no governo depois de 2013. Como explicar o fenômeno que leva uma política cuja popularidade decorreu dos melhores motivos possíveis, ou seja, da competência e da eficiência, a uma carência tão visível de apoio público? Não há resposta fácil para essa pergunta porque a situação de Angela Merkel depende de uma configuração única de circunstâncias que não permite mudanças nem alternativas.

Em primeiro lugar, não há nada de misterioso na taxa de aprovação dela, pois Merkel simplesmente implementa aquilo em que uma sólida maioria dos alemães acredita e deseja para a atualidade. Como a maioria dos políticos europeus, independentemente de sua filiação partidária, ela é – quase por instinto – social-democrata, ou seja, acredita que um Estado comparativamente forte deva equilibrar o interesse de uma poderosa indústria capitalista com os interesses de uma classe média cada vez maior, cujos membros, diferentemente da imagem tradicional dos aplicados trabalhadores alemães, combinam habilidades profissionais bem desenvolvidas com valorização do lazer e privacidade.

Esses alemães ficaram impressionados com a insistência de Merkel na necessidade de consolidar as finanças do país e se mostram dispostos a aceitar leves limitações pessoais em nome desse objetivo, especialmente quando tal "poupança" pública é propagada como virtude moral. Além disso, na situação alemã contemporânea, o fato de Angela Merkel ser mulher também ajuda – bem como sua origem, a Alemanha Oriental de antes de 1989.

Por outro lado, um ritmo familiar está começando a alcançá-la, uma dinâmica que parece inevitável dentro dos sistemas democráticos parlamentares, em particular quando se aproxima o fim do segundo período de quatro anos à frente de um país com duas coalizões governantes que se sucedem. Pode-se sentir uma disposição dominante, tanto na mídia pública quanto na privada, no sentido de devolver ao poder o outro grande partido do centro político, o Partido Social Democrata, ao lado do Partido Verde como provável parceiro de coalizão. Enquanto isso, os liberais, parceiros na coalizão de Merkel, se tornaram um problema que ela literalmente não consegue evitar: cerca de um ano atrás, eles tinham perdido tanto apoio que pareciam fracos demais para continuar participando da política federal; agora, quando começam a se recuperar, não querem mais ser a facção menor e obediente dentro do governo Merkel.

Assim, surge com bastante naturalidade a dúvida diante da capacidade de uma política bem-sucedida de usar seu carisma pessoal para transcender ciclos aparentemente inevitáveis na popularidade dos partidos democráticos.

Mas aí repousa a única falha visível de Angela Merkel. Com exceção de seu improvável e cativante entusiasmo com a seleção nacional, quase digno de uma jovem, seu único vestígio de carisma está numa sobriedade que consiste justamente numa ausência quase completa de carisma. Para piorar, ela também perdeu várias batalhas políticas no palco doméstico ao afastar, sem nenhuma necessidade política real, figuras potencialmente carismáticas como Joachim Gauck, alemão oriental cuja ascensão ao cargo puramente simbólico de presidente da federação foi vetada por ela (mas Merkel foi obrigada a aprovar a eleição dele menos de três anos mais tarde), e Norbert Röttgen, popular ministro da Ecologia demitido sem nenhuma justificativa convincente após sua derrota eleitoral no Estado mais populoso da federação.

De um ponto de vista estrutural, a situação de Merkel na política europeia é semelhante. Também nesse âmbito a recente eleição presidencial na França parece sugerir que o futuro pertence aos partidos de centro-esquerda, em vez dos partidos de centro-direita como a Democracia Cristã alemã. Com François Hollande, ela não poderá prosseguir com o eixo europeu de acordo fiscal elaborado em parceria com Nicolas Sarkozy. Ao mesmo tempo, a situação doméstica da Alemanha obriga Merkel a representar, em nível europeu, uma política de consolidação orçamentária que, além de ressoar pouco entre os demais países da União, também desperta o tradicional medo da Alemanha enquanto arrogante distribuidora do poder econômico e político. Principalmente por questões econômicas (a Alemanha depende, por exemplo, de a Grécia pagar créditos nacionais oferecidos recentemente), Merkel precisa defender a surpreendentemente pouco inspiradora ideia de unidade europeia que não encontra mais eco nem mesmo entre os alemães. Trata-se de uma situação na qual um político que tivesse a base de poder de Merkel e suas inquestionáveis habilidades políticas poderia tentar apresentar uma nova visão capaz de levar os países europeus a uma nova situação de maior proximidade. Mas, talvez para espanto de quem observa de fora, tal quadro não figura entre as possibilidades, pois – dado o trauma vivido pela Alemanha na primeira metade do século 20 – provocaria uma resistência interna intransponível.

Apesar de ser tão qualificada, o destino político de Angela Merkel será triturado pelos banais ciclos de oscilação entre partidos de centro-direita e centro-esquerda simplesmente porque, no caso particular dela, carisma e estilo visionário na política externa não estão no horizonte das opções realistas. Dentro de uma década, talvez, descobriremos semelhanças entre a carreira dela e a de Helmut Kohl - que tinha habilidades parecidas sem ser uma figura carismática nem visionária. Mas será que realmente queremos – será que sempre queremos – políticos carismáticos e visionários? Será que não é mais importante uma mudança e a ideia de que os políticos dependem do eleitorado, por mais banais que sejam as motivações dos eleitores para pedir mudanças?

Tradução de Augusto Calil

- Hans Ulrich Gumbrecht é professor de Literatura  na Universidade Stanford e autor de Elogio da Beleza Atlética (Cia. das Letras)

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