Contos de Mário de Andrade invadem os palcos

Pode parecer ´meio caminho andado´ ter como matéria-prima para a criação teatral três ótimos contos de Mário de Andrade. Mas é preciso operação artística igualmente talentosa para realizar a transposição de linguagem - da literária para a cênica - sem perda do essencial e também sem a rigidez da excessiva reverência. Nessa delicada operação, alcançam êxito o dramaturgo Mário Viana e o diretor Jairo Mattos ao levarem os contos Vestida de Preto, Atrás da Catedral de Ruão e Peru de Natal, de Mário de Andrade, ao palco do Teatro Popular do Sesi no espetáculo Assim com Rose.A escolha não seguiu o caminho mais fácil. Nos três contos o autor usa e abusa daquela liberdade da literatura que é a de poder revelar os pensamentos ocultos dos personagens, o atrito entre desejo e comportamento, a guerra entre impulsos e educação introjetada. Nessas narrativas, explora conflitos que são intensos internamente, porém sua exteriorização é toda feita de sutilezas.No primeiro conto, Vestida de Preto, sobre uma paixão juvenil, resulta em deleite para o público o recurso da presença em cena de duas representações do mesmo casal - Juca e Maria - na infância (Tânia Casttello e Renato Modesto) e na idade adulta (Flávio Faustinoni e Flávia Garrafa). Um achado que amplia significados. Juca adulto repete diante da fascinante mulher Maria a mesma reação do menino atrapalhado e tímido de outrora, por razões bem semelhantes. No palco, para o espectador, as motivações ocultas no comportamento de Juca e Maria adultos são reveladas pelas ´crianças´ que permanecem dentro deles próprios.Nesse conto, há ainda uma interferência radical de sentido, dada pela interpretação da atriz Flávia Garrafa para Maria. No original, Juca se vê desarmado diante de uma Maria adulta, vinda de Paris, mulher feita, segura, em plena posse de sua sensualidade. Flávia constrói a personagem por um outro viés, mais patético, da garota que chega deslumbrada do exterior e ´esfrega´ sua superioridade de mulher ´viajada´ no antigo par da infância. Como, na montagem, a Maria criança revela o embuste, a cena tem encanto e ganha em humor, mas por outro lado tal mudança enfraquece o constrangimento de Juca adulto, mais justificável diante da poderosa mulher vestida de preto do original.Pertinente e impagável é a inserção de Mário Viana ao conto Peru de Natal, de um irmão caçula para reforçar o contraponto entre o clima pesado da primeira ceia de Natal em família depois da morte do patriarca e o desejo do filho mais velho de comemorar a data festivamente. É o conto mais bem resolvido - todos os intérpretes estão muito bem nessa recriação - dessa montagem que tem como qualidade constante o ritmo ágil. A cenografia e os figurinos de Kleber Montanheiro conseguem ser enxutos e limpos, sem resvalar na precariedade e sem perder um gostoso tom de época.A interferência de uma moral de outro tempo sobre o conto Atrás da Catedral de Ruão - que revela os devaneios eróticos de uma professora de francês - talvez seja a maior dificuldade à sua encenação. O problema é que essas fantasias têm a medida da sua própria repressão, algo difícil de expressar nesses tempos em que as noções de recato e escândalo estão cada vez mais apagadas. De qualquer forma, é sempre operação arriscada essa de dar ´corpo´ a fantasias e a equipe não encontrou recursos para fazer isso com delicadeza, sem perda da aura de abstração. Acaba sendo o momento menos bem-sucedido desse espetáculo que se vê com muito prazer.

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