Contos de Machado de Assis ganham versão em quadrinhos

O jornalista Marcelo de Andrade passou a infância encantado com as histórias criadas por Mauricio de Sousa e Disney. A linguagem veloz e colorida das revistinhas o levou a tomar gosto pelo texto literário, o que mais tarde influenciou até sua escolha profissional. Este ano, ele decidiu investir seu tempo em um projeto ousado: transformar quatro contos de Machado de Assis em quadrinhos.Um time de ilustradores de primeira foi convocado para transpor os contos para a HQ. João Spacca de Oliveira ficou responsável pela adaptação de O Enfermeiro, Gilberto Maringoni, por Pai Contra Mãe, Lourenço Mutarelli, por A Causa Secreta e Newton Foot, por A Cartomante. Cada um deles recebeu carta branca para ilustrar e recriar os contos da maneira que preferisse. O único objetivo: fazer os adolescentes se afeiçoarem pela literatura por meio do olhar machadiano sobre a alma humana. ?Vamos tentar preservar o original, sem fazer concessões absurdas, do tipo incluir falas como ?é ruim, hein?, transformando o Machado em Bussunda?, contou Marcelo. Para completar o time, foi chamado o ilustrador Orlando Pedroso, responsável pelo projeto gráfico. Osvaldo Pavanelli assinará a capa e ilustrará uma biografia de Machado, em roteiro preparado por Marcelo. Batizado de Literatura² (literatura ao quadrado), o projeto ainda tramita no Ministério da Cultura, aguardando aprovação de financiamento pela Lei Rouanet. A publicação, se aprovada, terá formato de revista, com 30 páginas e tiragem de 30 mil exemplares. Já tem o aval da Fundação para o Desenvolvimento da Educação ? órgão ligado à Secretaria Estadual da Educação ? que se encarregará da distribuição da publicação.Os exemplares chegarão apenas às mãos de estudantes das escolas de ensino médio de ?maior risco social? ? situadas em áreas de violência e pobreza da Grande São Paulo ?, de acordo com mapeamento feito pela Secretaria Estadual da Educação. A idéia da coletânea concretiza um sonho antigo de Marcelo, ao qual foram se acrescendo pequenos detalhes ao longo dos anos. O tempo, aliás, foi o maior detonador do projeto. Ao perceber que completaria 30 anos sem ter feito nada de consistente usando a linguagem dinâmica dos quadrinhos, Marcelo decidiu pôr a mão na massa no começo do ano. Já havia exposto algumas de suas ilustrações em salões de humor voltados ao gênero, em Santos e Piracicaba. Mas nada que saciasse sua obsessão pelos quadrinhos. Lembrou-se de que trabalhara como revisor de livros paradidáticos em um cursinho pré-vestibular. A experiência lhe deu a certeza de que a maioria dos adolescentes não está preparada para para esse tipo de leitura. Daí, unir a linguagem dos quadrinhos à literatura, dentro de um projeto social, foi um passo: ?O quadrinho quebra barreiras?. A escolha de Machado obedeceu à sua predileção pelo escritor carioca. Machado de Assis (1839-1908)tem muito em comum com as crianças marginalizadas, acredita Marcelo. Mulato, ele teve de superar preconceitos da sociedade escravocata e europeizada da época para dar vazão à sua genialidade literária. Criado pela madrasta, vendia balas na rua para ajudá-la, enquanto assistia às aulas de uma escola pública. A leitura teve grande importância em sua formação. Devorava o que lhe caía nas mãos e logo cedo começou a escrever. De todos os contos escolhidos, diz Marcelo, Pai Contra Mãe cai como uma luva para o objetivo do projeto, pois chamará a atenção dos garotos. É uma das raras histórias machadianas a tratar da escravidão, na pungente epopéia de um homem que precisa alimentar o filho recém-nascido, cujo destino cruza o de uma negra grávida que fugiu do dono. Apesar de Machado ter experimentado algum preconceito, o Rio do século 19 contado em prosa por ele não chega aos pés do universo violento em que circulam os meninos de periferia, público-alvo da coletânea.Esta não é a primeira adaptação de Machado para os quadrinhos. O próprio Spacca transpôs o conto A Cartomante para a linguagem. No cinema, as versões de sua obra sofreram um pouco. Suas histórias, fortemente centradas no clima e costumes da época, não funcionaram tão bem na telona. Memórias Póstumas de Brás Cubas tornou-se Brás Cubas, em 86, pelas mãos de Júlio Bressane, com Luis Fernando Veríssimo no papel-título. Dom Casmurro teve adaptação de Paulo Cesar Saraceni e virou Capitu, em 67, com a musa do cineasta, Isabella, no papel da jovem com olhos de ressaca. Entre os contos, figura a adaptação de O Alienista por Nelson Pereira dos Santos, em seu pouco conhecido filme, Azylo Muito Louco, de 71. A Cartomante, que será adaptada para os quadrinhos, foi filmada em 74 por Marcos Farias.

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