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Contos de Everardo Norões recortam a realidade social

Poesia do cearense flagra a perversidade humana

RONALDO CAGIANO - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2014 | 02h04

Numa entrevista de 1948, Graciliano Ramos sintetiza que "a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer". Nesse espectro se situa a produção poético-ficional de Everardo Norões, que acaba de ganhar o disputado Prêmio Portugal Telecom com o volume de contos Entre Moscas (Ed. Confraria do Vento, Rio, 2013), vencendo pesos pesados da literatura nacional.

A premiação faz justiça não apenas à qualidade das 25 narrativas do livro, mas à trajetória literária desse autor, tradutor e ensaísta cearense radicado no Recife, cuja bibliografia há muito vem recebendo atenções da crítica, ainda que publicado em edições discretas e longe dos arruídos da imprensa do centro-sul.

As histórias de Everardo Norões recortam a realidade social e humana, em cujas tramas os protagonistas vivem o exercício do asco, as armadilhas, os baques e o f(r)io da lâmina existencial, temas recorrentes no percurso da civilização, que nessa captura recebem uma abordagem crítica e um olhar filosófico e poético, desvelando a coreografia dos que compõem o espaço e imaginário sociais, muitas vezes na exígua fronteira entre a ternura e a desumanidade.

O conto que nomeia o livro invoca-nos um personagem bartlebyano, domesticado e apático, a contemplar o voo desgovernado de uma mosca em seu quarto. Sua inércia, revelando tanto sarcasmo diante da cena insólita quanto inaptidão para vencer o incômodo provocado por um pequeno artrópode, deduz nossa congênita incapacidade de fugir dos aprisionamentos, no limite entre o humor e a escatologia.

Em O Catador de Lixo, a bizarra e rebarbativa rotina de um aposentado que continua a repetir o sem sentido da função lendo todos os dias o Diário Oficial, inoculado pela mosca de uma existência burocrática e sem saída, como os que mendigam nos lixões prospectando o inservível. A sua consciência metaforiza uma percepção generalizada sobre o ser e estar no mundo: "Imagino que assim deve pensar Deus - se é que Ele existe - sobre todos nós humanos, pequenos insetos nervosos a se mexerem, sem objetivo nenhum no nosso pequeno bólido perdido no universo".

Kafkiana. No emblemático O Fabricante de Histórias, o narrador onisciente acompanha alguém que passeia por Lisboa, com sua metafísica à Fernando Pessoa, dialogando com os seus tormentos: "Ele sabe que não há muito a dizer de novo: tudo o que pensar sobre a 'alma humana' está escrito na Bíblia e plagiado por Shakespeare. Satisfaz-se em lidar com a beleza dos astros. Sua maneira de dar ao velho uma formatação tão contemporânea quanto as vitrines de um shopping é o seu sucesso". Esse também constitui o mote, ou o salto dialético, que conduz todo o pensamento do autor em sua oficina criativa, estabelecendo uma reflexão não apenas sobre a vida, mas sobre o lugar da literatura e da arte nesses tempos em que tudo parece já ter sido dito, vivido e escrito, mas no fundo carece sempre de novos enfrentamentos.

Na escritura de Everardo subjaz o peso dos pequenos dramas e dilemas com uma mirada kafkiana sobre as perversidades, a insolência e os absurdos que emergem das malhas da (con)vivência. Seus contos deságuam em desfechos surpreendentes, arrematados pelo requinte da linguagem, pela intertextualidade e uma sutil simbiose com outros autores e obras, cuja dicção une as pontas da tradição e da modernidade. Além disso, o trânsito simbiótico entre o Recife e outras cidades do mundo, com alusões e referências a ambientes e atmosferas, incorpora uma experiência pessoal e afetiva, ajudando a compor um caleidoscópio narrativo que desnuda o caos e o submundo (os exteriores e os psicológicos), às vezes afrontosos e imperceptíveis. Eis um autor que diz, com cristalina economia de meios, mas sem rodeios nem floreios, sobre o essencial do mundo que (o) habita.

ROBERTO CAGIANO É AUTOR DE DICIONÁRIO DE PEQUENAS SOLIDÕES (CONTOS, ED. LÍNGUA  GERAL), DENTRE OUTROS

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