Conto do deserto

Um grupo de tuaregues coloca pulgas atrás da orelha: afinal, de onde veio o blues?

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

Não se sabia logo de cara quem estava ali mais desconfiado: se os tuaregues do Mali estudando o público do Bourbon Street enquanto se posicionavam no palco ou se o público do Bourbon Street estudando as burcas dos tuaregues do Mali. Eles eram em cinco, às vezes viravam seis, e ninguém na plateia os conhecia, exceto Charles Gavin, pesquisador, ex-baterista dos Titãs: "O disco dos caras é uma piração, você vai ver no show. O baixista canhoto usa o baixo invertido sem inverter as cordas".

O Tinariwen, nome do coletivo árabe que se apresentou na casa na última terça-feira, ligou seus instrumentos rapidamente, uma guitarra base, um violão solo em afinação aberta e um baixo elétrico, sustentados por uma percussão. E, a partir dali, algo bem louco começou a rolar.

A música que fazem obedece a ciclos de uma harmonia básica e mântrica, capaz de elevar as plateias a dois metros do piso e fazê-las planar em um tapete persa, ainda que ninguém entenda bulhufas do que dizem. E o curioso é que os jovens que enchiam o Bourbon, providencialmente formatado com pista à frente do palco e mesas ao fundo, estavam ali na maioria para verem o soul de Aloe Blacc, um cara animado que torce Marvin Gaye e James Brown até não sobrar nada. Seu show é para cima, sem respiro. E o Tinariwen, se não chegasse chutando a porta da frente, estaria em apuros.

E aí começa a lição que este grupo nômade pode dar aos ocidentais. Ninguém precisa chutar portas para ser aceito, basta passar no palco o que o pessoal do teatro chama de "verdade". Cada ruga no rosto mouro de seus integrantes, na faixa dos 50 anos, conta mil histórias.

Um deles, o mais velho, só está ali basicamente para dançar. Sua presença é fundamental. O grupo não tem formação fixa: toca quem quiser. Alguns integrantes não viajam simplesmente porque não deixam suas casas e suas famílias por nada. Celebridade é um termo que não traduzem. Esse povo nômade vive nos desertos africanos há pelo menos cinco séculos sem uma nação definida e com um passado marcado já na origem de seus nomes: tuaregue significa "abandonados pelos deuses". Musicalmente, não é o que parece.

Os sons que criam valem um outro documentário. Apesar de não conhecerem Muddy Waters ou Robert Johnson, a música é sustentada sobretudo com a mesma escala pentatônica (de cinco sons) que deu origem ao blues dos norte-americanos. Não seria descabido tratá-los como John Lee Hookers do deserto. Os solos de suas guitarras Fender são duros, sem recursos de bends ou riffs, exatamente como os de Hooker, e sua função é a mesma da música do Mississippi: o reforço do lamento e da euforia.

Quando o mexicano Carlos Santana disse a Martin Scorsese que, antes de falar inglês, o blues era essencialmente africano, não se referia a cores. Os Tinariwen são da "parte branca" da África, mas as intenções de sua arte estão na alma do blues, que deu origem ao rock and roll. Algo aí precisa ser mais bem explicado.N

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