Conto do adeus à ilusão

Obra do chinês Mo Yan trata da distância entre o que a revolução prometeu e fez

Vinícius Jatobá,

13 de abril de 2013 | 02h17

O chinês Mo Yan, ganhador do Prêmio Nobel do ano passado, é um dos mais engenhosos romancistas da atualidade. Suas frondosas narrativas, todas traduzidas com esmero por Howard Goldblatt, incorporam tanto o melhor da tradição realista de estabelecer a crônica da história privada de uma nação, quanto apreendem o mais simbólico e fugidio da sociedade chinesa, encenando a religiosidade com que a oralidade se espraia, resgatando rastros de uma religiosidade milenar que nem a práxis comunista consegue sufocar. Seus romances diferem-se em temas e técnicas, mas mantém um mesmo coração: a conturbada e dolorida experiência histórica chinesa do século passado.

Sua obra tão avidamente lida alcança o cerne emocional de uma população que se sente traída e incomodada com os caminhos do comunismo, mas que tem fresca na memória a lembrança da dor faminta e da miséria geral que era a China anterior à Revolução. Os narradores de Mo Yan são reféns: vorazes críticos da política que os tirou da miséria, entravados eles parecem convulsos entre um passado em que não tinham nada e um presente em que pouco possuem. Só lhes restam gritar, esbravejar, motivo pelo qual a prosa de Mo Yan tem essa qualidade arrotada, confusa e caótica. É o delirante discurso social reencenado ficcionalmente.

Esse delírio alcança um patamar histriônico em POW!, romance recém-lançado nos EUA e na Inglaterra. Nele, Mo Yan retoma um dos motores essenciais que impulsionam suas narrativas: uma decisão da administração estatal de elevar o preço da carne acaba por estimular todos os fazendeiros de um vilarejo a eliminarem seus cultivos para dar lugar a pastos de gado. Essa entrega apaixonada a uma decisão estatal já havia sido dramatizada em The Garlic Ballads, um de seus primeiros romances, em que um plano quinquenal de substituir todos os cultivos de uma região por plantações de alho levam toda a população novamente à miséria e à fome. Onde Garlic investia na escassez POW! hiperboliza no excesso: em pouco tempo o vilarejo está infestado pelo cheiro de carne bovina.

Mo Yan é um genial satirista: o credo à carne começa a influenciar os hábitos da população, que começa a festejar a carne com fervor quase religioso. O narrador do romance, Luo Xiatong, é um achado. Miserável, faminto, sua fome é tamanha que começa a ter uma relação mágica com comida, e quase telepática com as vacas e bois. Logo é apreciado e adorado por todos os açougueiros da região, tornando-se uma lenda local tanto por sua heroica glutonice, que é elevada a categoria de arte pelos seus admiradores, como pela cumplicidade que consegue com os bois e vacas mais ariscos. De dentro de um templo reativado, Luo conta a um monge a história de ascensão e queda do vilarejo, que se confunde com o arco de sua própria vida.

Há um constante sentimento de desilusão em toda obra de Mo Yan. Quando o narrador de Life and Death Are Wearing me Out, que morre durante a Revolução Chinesa, finalmente reencarna como homem após sucessivos retornos como animais, sua educação comunista nada serve em uma sociedade que na prática voltou a ser capitalista. O narrador revolucionário de Big Breast & Wide Hips percebe que todo sacrifício de sua geração se perde na mão de uma burocracia que, apesar de se autoproclamar comunista, organiza-se como os antigos empresários e fazendeiros. Toda uma população é castigada como subversiva em The Garlic Ballads quando, após seguirem as demandas de plantarem alho do governo, cobram das autoridades os suprimentos prometidos. A obra de Mo Yan, assim, mais do que uma crítica ao comunismo, encena por meios de seus romances uma constatação da distância entre aquilo que a Revolução prometeu e aquilo que ela realmente alcançou.

* VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO E FICCIONISTA

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