Continuidades

Os problemas certamente virão. É ingênuo pensar que é possível ter uma política de quinta categoria e uma economia de "primeiro mundo", como tenho ouvido de pessoas do mercado financeiro. Primeiro, porque - ao contrário de uma Itália, com seus Berlusconis e sua instabilidade parlamentar - o Brasil é em muitos sentidos um país imaturo, que não consolidou suas instituições, seus valores essencialmente democráticos. Segundo, porque muitas das melhoras a longo prazo que o desenvolvimento exige - como as reformas estruturais e a competência pública - têm remotas chances de vingar com a atual classe política e o insano sistema partidário. Essa propaganda lulista de que o Brasil "está quase lá", bastando continuar o que está sendo feito (desde o governo FHC, como se sabe), é apenas isso, propaganda. Ilusão.

Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2010 | 00h00

A população já demonstrou claramente que pretende votar pela continuidade, relativamente satisfeita com o crescimento da economia e a queda do desemprego, mas, volto a dizer, quem imagina que não existe frustração com muitas realidades brasileiras comete um equívoco. O novo escândalo do governo Lula, com a violação de dados sigilosos de nomes tucanos pela Receita, inclusive da filha de Serra, não deve alterar significativamente o panorama eleitoral, mas isso não justifica que a ministra e candidata Dilma desdenhe a gravidade do fato. Uma coisa é dizer que não há provas que mostrem que foi a mando da campanha petista, outra é fingir que um crime não foi cometido e não teria o adversário tucano como alvo - e deixar de investigar e punir.

Lulistas sempre disseram que a corrupção não aumentou, que apenas estaria aparecendo mais, supostamente graças a trabalhos como o da Polícia Federal, ora curiosamente sumida do noticiário. Notei na época do mensalão que o caixa 2 do PT e aliados não tinha, estranhamente, motivado nenhuma operação "Estrela Vermelha", nenhuma apreensão de arquivos, nenhuma prisão de Valério e Delúbio. Ainda assim, somos obrigados a ouvir de intelectuais da USP e Unicamp que os juízes grampeadores prestam grande serviço à República e que a "Era Lula" (sic) tem sido a mais "justa e inclusiva" da história do Brasil... Sim, a corrupção no Brasil não escolhe partido, mas o partido que está no poder federal tem feito muito pouco pelo fim da impunidade. É o governo do "não sei", do "todo mundo faz isso", do "relaxa e goza".

É mais que legítimo, portanto, qualquer cidadão se perguntar se o próximo governo vai dar continuidade a isso também. A julgar pelo histórico recente da provável eleita, o difícil é acreditar que os escândalos diminuirão. Não é a primeira vez, afinal, que pairam suspeitas sérias sobre, digamos, os "métodos administrativos" de Dilma e sua turma, sua atração por dossiês e violações. Além disso, ao contrário de Lula, ela faz campanha nos braços do PMDB, partido do qual seu vice é um dos caciques, e distribui sorrisos - forçados, mas não menos comprometedores - ao lado de Sarney, Barbalho, Renan e outras sumidades. Quanto terá custado o apoio do maior partido do Brasil? Ou melhor, quanto ainda custará, em termos de futuros contratos empreiteiros e emendas parlamentares? E os aloprados, soltos como nunca, continuarão a triunfar? Sem a blindagem carismática que Lula tem, Dilma pode se complicar.

Mas não apenas as instituições e os valores que seguem impotentes. Apesar dos ótimos números sazonais da economia, em grande parte ajudados pelo que foi feito antes e pela conjuntura internacional, a incompetência gerencial tem dado o tom. Pense nas realizações de cada ministério nos últimos oito ou 16 anos. Há pequenas vitórias, programas pontuais de boa repercussão, mas não uma melhora consistente de um setor no todo. O acesso a universidades continuou aumentando, mas a grande maioria da população permanece estancada num ensino médio de nível decadente. As estatísticas de saúde melhoraram pela inércia da melhora no IDH, mas o atendimento em hospitais públicos continua a ser quase sempre precário. A criminalidade não desce do patamar hediondo que ultrapassa países em guerra, do mesmo modo que o desumano sistema penitenciário segue sendo uma indústria de bandidos. Favelas são pintadas em tintas coloridas, mas não têm rede de esgoto. Estradas, correios, portos, aeroportos, usinas - com mais termoelétricas, ou seja, mais poluentes - e toda a infraestrutura continuam beirando o colapso. Etc., etc.

Mesmo na condução da política econômica propriamente dita há mais problemas do que se imagina. Dilma disse na semana passada que não é preciso fazer ajuste fiscal porque as reservas financeiras estão altas e a dívida interna declinante. Mas as reservas são para diminuir o risco e atrair o mercado internacional e, sim, a dívida interna subiu, sobretudo depois de o governo sair fazendo bondades setoriais na crise e ampliando seus gastos com servidores e desperdícios. Pior, a taxa de investimentos continua abaixo de 20% do PIB, o que significa que o Brasil tem compromissos pela frente - como organizar eventos esportivos e explorar o pré-sal - que não tem como arcar; BNDES e Petrobras não podem fazer isso sozinhos. Se tivesse uma política regulatória para atrair investimentos produtivos, o cenário seria outro. Mas Dilma está há quatro anos no poder e só ajudou as estatais e as bolsas. O capital produtivo segue sobrevivendo apesar do Estado, não por causa dele.

Há coisas boas nos governos de 1994 para cá, mas há muitas coisas ruins e coisas por fazer. O problema de uma cultura oligárquica e comodista é confundir umas e outras, vendendo a ideia de que as primeiras gradualmente - do modo suave, cordial ou doce que tantos estudiosos gostam de destacar como uma essência imutável - levarão à extinção das demais. O povo quer algumas continuidades, mas também gostaria de algumas mudanças. O que terá, no máximo, serão continuidades ou ajustes disfarçados. É essa a herança maldita do governo Lula: ele desmoralizou a mudança.

Rodapé (1). Monteiro Lobato é quase sempre lembrado por sua literatura infantil, e não sem razão. Algumas pessoas ainda conhecem os contos adultos de Urupês e alguns livros de polêmica como Ideias de Jeca Tatu e O Escândalo do Petróleo, ou então sua crítica de arte tradicionalista contra Anita Malfatti. Mas há um volume que ocupa um lugar especial em minha memória desde que o li na adolescência, e que está sendo reeditado agora pela Globo: A Barca de Gleyre. São as cartas que trocou durante 40 anos com seu melhor amigo, Godofredo Rangel, escritor hoje esquecido.

Essa diferença entre posteridades pode ter a ver com a intensidade intelectual de Lobato. Ele não para de aprender, de descobrir autores (dizia gostar dos "carnívoros" como Gorki, Kipling, Mencken e Camilo, não dos dietéticos), de viajar, de se lançar em empreitadas como empresário, fazendeiro, editor, jornalista, de cobrar de Rangel uma atitude menos solene ("Deixe de rapapés!") e convencional. É uma inteligência muito produtiva, contestadora e criativa, daquele tipo que causa tanta inveja nos meios literários.

Quando decide escrever os contos, afirma querer "contos concentrados em que haja drama ou que deixem entrever dramas", que fujam do estilo brasileiro "morno e sorna", cheio de adjetivos e vazio de ideias. Reclama dos que "insistem nessa história de aproximação entre Brasil e Portugal" e diz que o estilo verdadeiro, como em Machado de Assis (cujo Memorial de Aires é uma obra-prima, segundo Lobato, por dizer tudo a partir do nada), só surge aos 40 anos, depois de muito escrever, publicar e não publicar. Menos que um provinciano, em suma, vemos alguém lutando contra um país provinciano, abrindo caminho para os que vieram depois. E um epistológrafo de primeira, figura rara na literatura brasileira, tão mais pródiga em memórias.

Rodapé (2). Vi saudações entusiásticas ao livro How Pleasure Works, de Paul Bloom, um neurologista que anuncia uma "nova ciência sobre por que gostamos do que gostamos". Faz parte dessa corrente de estudiosos que buscam entender a psicologia humana com análises experimentais e conceitos darwinistas; as influências de Antonio Damasio e Steven Pinker, por exemplo, são claras. Mas Bloom avança muito mais o sinal do bom senso e, bem à maneira americana, converte suas pesquisas numa afirmação cabal de que os prazeres são manifestações de nossa tendência natural a ver nos atos mais simples uma essência, uma série de características comuns que vão além das semelhanças de aparência. O prazer de uma cerveja, por exemplo, não seria refrescar o corpo, mas prometer uma felicidade - o que os publicitários sabem faz tempo.

O problema do essencialismo não é apenas o de redundar em racismos, como reconhece Bloom, quando organizamos grupos humanos em categorias de acordo com a cor de pele. O problema é desconsiderar a infinidade de variações, algumas das quais podem significar uma mudança radical de padrão, e abordar de modo equivalente o prazer de um orgasmo e o de ler Voltaire. Bloom diz que a mente é um "centro de entretenimento", que procura companhias que lhe tragam felicidade, e que disso deriva nosso gosto por histórias de ficção, humor, pessoas charmosas, etc. Sim, o prazer é uma força em si mesmo que deveria ser mais considerada na natureza humana, vista sempre como estoque de vaidades ou sede de poder. Mas não existe prazer, existem prazeres - e isso é o que lhe dá valor. Karl Popper escreveu em sua autobiografia que o essencialismo é o que o separava da grande maioria dos pensadores. A maioria continua igual.

Por que não me ufano. Que o STF tenha precisado derrubar a lei que proibia piadas com candidatos, depois da passeata dos humoristas no Rio e da pressão da sociedade, é algo a comemorar, mas também esquisito: a lei nem sequer deveria ter sido decretada, de tão anticonstitucional que era. Enquanto isso, a Voz do Brasil volta a ser obrigatória em rádios, às 19 h, e nada mais República das Bananas do que isso. Esse entulho autoritário já deveria ter sido removido décadas atrás.

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