Continências a um mestre que coloca as palavras no lugar certo

Depoimento: Martinho da Vila

O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2012 | 03h10

O Sargento Martinho Ferreira e seu superior, Sargento Nelson Mattos, são compositores e há anos se prometeram uma parceria que não acontecia nunca. Por ocasião da gravação do CD Do Brasil e do Mundo, o que se considera subalterno porque antiguidade é posto, ganhou do mais velho uma melodia para um samba e, ao ouvir, exclamou: "Que música linda". Aí criou uma letra um tanto contundente, Nossos Contrastes, nada parecida com poesias de samba. Um tanto inseguro, mostrou ao mestre e este, para sua alegria, abriu um largo sorriso de satisfação: "Concerto de cordas, ópera chocante/ Araponga, grilo, rouxinol cantante/ Tuba, bombardino/ Fagote, oboé/ Na madrugada uma forte batucada/ Hip-hop e Reggae/ Seresta e Axé/ Barata que voa, borboleta azul/ Canta o Garnizé, late o Pit Bull/ Triste acalanto de manhã/ Silvo de serpente, coaxar de rã/ Com sorriso de mulher/ Uma brisa leve, uma ventania/ Nuvem turbulenta, vaga em calmaria/ Dinheiro no banco, esmola na mão/ Zuela, mantra, penitência e oração/ Corpo bronzeado, sol no lajeado/ Fosco firmamento, céu em tom anil/ Rock Heavy Metal, samba de raiz/ Fogo de morteiro, bala de fuzil/ Riqueza opulente, pobreza indecente/ Mesmo assim eu amo meu país."

Lazão e Bino, componentes do Grupo Cidade Negra, ouviram encantados a criação dos sargentos e o Toni Garrido, solista da banda, disse que a melodia era dolente como um reggae e que deveria ser feita uma fusão dos dois ritmos. Dito e feito, o produtor Mazzola vibrou e eu mais ainda. Aí, tensos, chamamos o Nelson para dar o seu aval. O defensor do samba tradicional poderia não gostar de ter a sua música fundida ao reggae. Ao ouvir, sua expressão séria de início dissipou-se e os seus olhos brilharam. Por fim, bateu palmas e todos nos abraçamos. Glórias ao grande Nelson Sargento, poeta, escritor, artista plástico! E autor de um dos mais lindos sambas de enredo da sua Verde e Rosa, o antológico Quatro Estações do Ano, feito em parceria com Alfredo Português e Jamelão: "Brilha no céu o astro rei com fulguração/Abrasando a terra, anunciando o verão/Outono, estação singela e pura, é a pujança da natura dando frutos em profusão/Inverno, chuva, geada e garoa/ Molhando a terra preciosa e tão boa/Desponta a primavera triunfal!/ São as estações do ano num desfile magistral/ A primavera, matizada e viçosa pontilhada de amores/ Engalanada, majestosa.../ Desabrocham as flores nos campos, nos jardins e nos quintais/A primavera é a estação dos vegetais/ Oh! primavera adorada, inspiradora de amores!/ Oh! primavera idolatrada!... Sublime estação das flores."

O verso mais famoso do Nelson é "Samba... Agoniza mas não morre. Alguém sempre lhe socorre antes do suspiro derradeiro". E a que eu mais gosto é: "O nosso amor é tão bonito... Ela finge que me ama e eu finjo que acredito."

Continências, mestre.

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