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Luis Fernando Verissimo
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Contículos

Aquela conversa de travesseiro.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2015 | 02h00

– Quem é o meu quindinzinho?

– Sou eu. 

– Quem é a minha roim-roim-roim?

– Sou eu.

Aí ele inventou de dizer que jamais se separariam e que ele seria, para ela, como aquele nervinho da carne que fica preso entre os dentes. 

E ela:

– Credo, Osmar, que mau gosto! 

E saiu da cama para nunca mais. 

O amor também pode acabar por uma má escolha de metáforas.

Sentimento. Quase se casaram, mas ela se chamava Dulcineide e ele pressentiu que teria problemas com os sogros.

Investigação. O inspetor que investigava o caso da trapezista checa morta com uma adaga de gelo nas costas tinha um cachimbo permanentemente no canto da boca, mas com o fornilho virado para baixo. Dizia que era para não ter nem a tentação de enchê-lo, pois estava proibido de fumar. Mas o importante é que consultei o dicionário antes de começar a escrever este conto e só então descobri que aquela parte do cachimbo se chama fornilho, o que passei a maior parte da minha vida sem saber. 

Toda literatura, no fim, é autobiográfica.

No elevador. Conto erótico. “Lambo você todinha” disse o homem no ouvido da mulher, no elevador. A mulher firme. Silêncio. No décimo andar o homem falou de novo. “Lambo...Palavra engraçada, né?” Nunca tinha se dado conta.

Está bem, mais ou menos erótico.

Amigos. Calçada. Homem com cachorro. Cachorro fazendo cocô. Passa mulher e diz: “Que nojo”. Homem, para mulher que se afasta: “Nós somos apenas amigos!”.

O Arruda. Sete de cada lado, as mulheres assistindo. Todos com barriga e pouco fôlego. Menos o Arruda. O Arruda em grande forma. Cinquenta anos, e brilhando. Foi depois de o Arruda dar um passe para ele mesmo correr lá na frente como um menino, chutar com perfeição e fazer o gol, para delírio das mulheres, que todo o time correu para abraçá-lo.

mpilharam-se em cima do Arruda. Apertaram o Arruda. Beijaram o Arruda. O Arruda depois diria que alguém tentara torcer o seu pé e outro mordera a sua orelha. Quando o Arruda quis se levantar para recomeçarem o jogo, não deixaram. Derrubaram o Arruda outra vez. Quando ele parecia que estava conseguindo se livrar dos companheiros, veio o time adversário e também pulou no bolo para cumprimentar o Arruda. O Arruda acabou tendo que sair de campo, trêmulo, amparado pelas mulheres indignadas, enquanto o jogo recomeçava. Agora só com os fora de forma. 

Final. “Puxou o fio, só por curiosidade, e no dia seguinte leu no jornal que o Taj Mahal tinha desmoronado. Até hoje ele não sabe se foi ele.” Ainda vou escrever um conto que termina assim. 

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