Contestado prestígio do Jabuti

Uma grande injustiça no Prêmio Jabuti de 2002: Machado de Assis (1839-1908), que teve pelo menos duas reedições de sua obra-prima Memórias Póstumas de Brás Cubas lançadas no ano passado (pela editora Sá), não figurou na lista dos dez pré-finalistas ao prêmio, o mais tradicional do mercado editorial do País, divulgada no fim de fevereiro. O anúncio dos três finalistas do Jabuti em cada uma das 16 categorias deve ser feito no início do próximo mês, e a entrega dos troféus aos vencedores deve ocorrer na Bienal do Livro de São Paulo, que começa no dia 25 de abril.De acordo com o regulamento, disponível no site da Câmara Brasileira do Livro (www.cbl.org.br), organizadora do Jabuti, Machado não poderia mesmo concorrer. Mas a regra que rege a categoria romance e a maioria das outras 15 do prêmio ("serão premiadas as obras de autores, capistas e ilustradores nacionais, ou radicados no Brasil, que foram publicadas em primeira edição em língua portuguesa e no Brasil, aceitando-se, contudo, que a impressão tenha sido feita fora do país") parece não estar valendo - afinal, nomes consagrados da literatura brasileira, como Cecília Meireles (1901-1964) e Manuel Bandeira (1886-1968) concorrem, com suas obras completas, ao prêmio de melhor livro de poesia - obras completas que, essencialmente, reúnem seus livros publicados esparsamente."Achei maravilhoso concorrer com eles", disse à Agência Estado o tradutor Ivo Barroso, que estreou em 2001 como poeta com o livro A Caça Virtual e Outros Poemas. Depois de afirmar que achou estranho a inclusão de Cecília e Bandeira, autores póstumos, entre os pré-finalistas, completou: "Se eu ganhar, é porque eles não foram considerados; não vou achar que sou melhor que Cecília e Bandeira, grandes deuses da literatura brasileira."Também é reedição a obra Niemeyer - Um Romance (Iluminuras), de Teixeira Coelho, livro publicado na década de 1990 pela Geração Editorial -, rejeitada pelo júri do prêmio quando o disputou pela primeira vez, mas agora uma das candidatas ao troféu Jabuti. Estranheza parecida causa a inclusão, entre os dez finalistas, da reedição - fac-similar - do jornal Correio Braziliense, impresso em Londres e que circulou no Brasil de 1808 a 1823.A lista de 2002 tem provocado discussões entre editores e autores. Muitos não falam a respeito, para evitar constrangimentos ou com temor de represálias. Um dos autores que concorrem neste ano afirmou, pedindo que seu nome não fosse revelado, que a lista indica a existência de "um critério meio maluco". "Mas quem inscreve é a editora; pode ser que o jurado veja nisso uma espécie de resgate de um livro histórico, mas a solução deveria ser a criação de uma nova categoria, a das reedições e das obras completas."Há quem peça uma total reformulação do prêmio (atualmente em seu 44.º ano), que já revelou nomes importantes da literatura brasileira. "Esse prêmio precisa ser explodido", acha Raimundo Gadelha, da editora Escrituras, que critica o fato de os três jurados de cada categoria não conhecerem os votos de cada um. "Isso gera suspeitas de que há manipulação de resultados", acredita. "Atualmente, o Jabuti é cego, burro e tendencioso.""O Jabuti é um prêmio que já teve grande prestígio; hoje, caminha para a desmoralização", emenda Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial. "Seus critérios são no mínimo discutíveis; sempre me recuso a votar no livro do ano."Depois do anúncio dos três ganhadores do Jabuti em cada categoria, os editores escolhem os "livros do ano", nas categorias ficção e não-ficção. Esse resultado é, portanto, bastante influenciado pelo mercado, o que, ao lado do número excessivo de categorias e da premiação tríplice (abandonada em 2002), é uma crítica que já se fazia ao Jabuti nos anos passados. "Acho que deveriam nomear uma comissão para repensar o prêmio", defende Emediato."O Prêmio Jabuti tornou-se parecido com o Oscar: para você ter chance, tem de ir às festinhas dos caras, paparicar e freqüentar", ataca Ricardo Soares, escritor e apresentador dos programas Literatura (Rede Sesc/Senac) e Caminhos e Parcerias ("TV Cultura"). "É uma fogueira das vaidades literária, onde manda lobby de editor e lobby de acadêmico."No ano passado, o escritor e jornalista Ronaldo Bressane (autor de 10 Presídios de Bolso) criou o Prêmio Jaburu, obviamente inspirado no Jabuti. "Menos como uma paródia, e mais com o intuito de escolher o pior livro lançado em cada ano." Ele conta que, na edição de 2001, cem escritores votaram em sua enquete. A vencedora foi Patrícia Melo, com Inferno, ironicamente também ganhadora (com Milton Hatoum, de Dois Irmãos, e Domingos Pellegrini, de O Caso da Chácara Chão) do Jabuti de melhor romance.

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