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Contemporâneos da Tropicália, Os Mamíferos buscam sua inserção na História da MPB

Antes de Alice Cooper, Bowie e Secos & Molhados, houve um grupo de mascarados, Os Mamíferos

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h09

Quem pintou o rosto antes?

Há uma certa unanimidade no tema. A tradição do make-up na música popular brasileira teria sido inaugurada há exatos 40 anos por um dos maiores e mais originais grupos do pop mundial, os Secos & Molhados, em novembro de 1971. Foi quando o grupo gravou Voo, para a trilha da peça Corpo a Corpo, de Antunes Filho.

"Na época, já havia um sentimento diferente, já acontecia... Havia o New York Dolls, o David Bowie, o Alice Cooper. Mas a nossa necessidade de pintar os rostos não era só estética. Era essencial. Era o momento do rock progressivo, e nós fazíamos canções. Nosso cantor tinha a voz fina. Vimos a necessidade de nos apresentarmos de maneira diferente, não éramos uma banda no sentido convencional", lembra hoje João Ricardo, compositor, violonista e cantor dos lendários Secos & Molhados.

Acontece que, anos antes de Alice Cooper, de David Bowie, na cena musical de Vitória, Espírito Santo, a partir de 1966, um outro grupo assombrava as plateias com uma performance psicodélica, os rostos pintados, maquiagem pesada e a atuação insana e performática de um cantor andrógino (Aprígio Lírio). Era Os Mamíferos, garotos fãs de Allen Ginsberg e do movimento beat americano, de Aldous Huxley e Marshall McLuhan. Uma história nunca contada porque não alcançaram o estrelato. Até agora.

O leitor acha improvável estabelecer uma conexão entre o primeiro grupo brasileiro de mascarados e o lendário Secos & Molhados? Cérebro deste último grupo, João Ricardo conta que nunca ouviu falar em Os Mamíferos. Ney Matogrosso também garantiu a Murilo Abreu, filho de um dos integrantes daquele grupo, que nunca os viu. Mas há gente que pensa diferente.

"O fato de os Mamíferos terem pintado os rostos antes dos Secos & Molhados, no meu ponto de vista, não quer dizer que os Secos & Molhados foram influenciados por eles. O que torna isso possível é justamente o fato do Ney Matogrosso ter morado em Vitória por uns meses na mesma época, sendo professor substituto no curso de artes da Universidade Federal do Espírito Santo", revela o jovem Murilo. Ele pesquisa há dez anos, obsessivamente, a história da cena em que se desenvolveu a banda. E criou, em 2005, o grupo Aurora Gordon, cuja missão na vida é recuperar o repertório e os arranjos originais de Os Mamíferos e das bandas da cena psicodélica sessentista de Vitória.

O trio original de Os Mamíferos era composto de Afonso Abreu, Mário Ruy e Marco Antônio Grijó. Mas a banda tornou-se uma espécie de célula vanguardista no decorrer dos anos e foi amealhando intelectuais e músicos pelo caminho. Dois já morreram: Aprígio Lírio, vivendo problemas existenciais, teria se suicidado; o teórico do grupo, Arlindo Castro (que atuava mais como compositor e no conceito) morreu do coração há uns dez anos. Outros dois compositores muito ativos do núcleo, Rogério Coimbra e Sérgio Régis, continuam na ativa.

 

"A gente ia participar de um festival de música. Era um festival de almofadinhas. Todo mundo de smoking", relembra Afonso Abreu, pai de Murilo e um dos cabeças daquela banda capixaba. "Olhando das coxias, a gente teve a ideia de derrubar tudo e, antes de entrar no palco, falamos com esse nosso amigo cabeleireiro. Não posso dizer que a gente tenha feito antes do Yes, do Alice Cooper, mas acho que foi tudo meio simultâneo. Só que fomos um caso isolado, porque não tínhamos acesso a essas ondas do exterior naquela época."

Sérgio Régis, que se juntou ao grupo na virada dos anos 1960 para os 1970, conta que Os Mamíferos tiveram uma importância cultural bastante ampla em sua época, e que isso foi reconhecido pelos tropicalistas. Torquato Neto menciona a banda no livro póstumo Os Últimos Dias de Paupéria, e também escreveu sobre eles na época, em sua coluna no Jornal do Brasil. "Capinam esteve em Vitória na época, e nós conversamos muito. Ele era inteligente, mas não tinha ouvido falar na Obra Aberta, do Umberto Eco, nem em Marcuse, não se ligava nisso. Nós tínhamos isso em mente, fazer um trabalho que, ao mesmo tempo que era muito coloquial, tinha um substrato intelectual. Os Mamíferos tinham uma gama de informação muito ampla, que ia da bossa nova, do jazz, até o cinema italiano da época, o movimento estudantil francês", conta Sérgio Régis.

Afonso Abreu, sobrinho do escritor Rubem Braga, conta que parou de compor em 1978 porque achou que "estava fazendo uma música parecida com todas", e porque precisava ganhar a vida e sustentar a família. "Os Mamíferos faziam uma música muito bem arranjada, uma coisa harmônica difícil de tocar. A gente não era muito querido. Empolgava, mas ninguém queria seguir", diz. Com alguns amigos visionários, seu filho, Murilo, busca a inserção de Os Mamíferos na História da MPB - uma tarefa difícil, porque há poucos registros gravados e fotográficos. "Mas há material aí para uns três ou quatro discos inéditos."   Mas a questão inicial prossegue: quem pintou o rosto antes? Onde está a ponta desse novelo? Os Mutantes tiveram uma abordagem semelhante em alguns momentos, mas Os Mamíferos acham que eles fazia isso com um propósito cômico, escrachado, enquanto sua banda tinha abordagem dramática.

Os Secos & Molhados também parecem ter se espelhado na trupe cênica Dzi Croquettes (na maquiagem e na mise-en-scène). E, no encalço dos Secos & Molhados, vieram outras bandas, como o Assim Assado e os Achados & Perdidos. "Em 1973, nós fizemos um show no Masp, e o baterista de Os Brazões, que tinha também uma outra banda, participou", lembra João Ricardo, dos Secos & Molhados.

No plano internacional, Alice Cooper montou sua banda em 1969. "O que pretendi foi representar no palco uma espécie de sintoma de minha época, trazer alguma poesia à vida", disse Cooper ao Estado.  

 

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