'Contemporâneo de Mim' reúne artigos de Daniel Piza

De futebol a política externa, livro traz 173 textos marcados pela parcialidade jornalística

Ubiratan Brasil, do Estadão

01 de outubro de 2007 | 16h40

Ao jornalismo, sempre se reclama uma balanceada combinação de convicção e ceticismo. A ingenuidade e o comprometimento viciado representam um desserviço à sociedade que, bombardeada por informações diversas e descontínuas, necessita de uma prática honesta, baseada na dúvida inteligente e no comentário construtivo, para exercer o saudável exercício do questionamento. É o que norteia a coluna Sinopse que Daniel Piza comanda desde outubro de 1996 - primeiro na Gazeta Mercantil e, desde maio de 2000, no Estado.  Escrevendo sobre assuntos diversos, de futebol a política externa, Piza sempre se preocupou em registrar e analisar seu tempo, como se fizesse "história a quente", segundo sua própria expressão. O resultado é um caldeirão artigos marcados pela parcialidade jornalística. E, para comemorar a primeira década de produção, Piza, atual editor-executivo do Estado, selecionou 173 textos que formam agora Contemporâneo de Mim, livro cujo lançamento acontece nesta segunda-feira, 1,  a partir das 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na capital paulista. O título foi emprestado de um belo poema de Ferreira Gullar, que serve também de epígrafe. Uma escolha justificada - Piza explica na introdução que a palavra "sinopse" tem origem grega e quer dizer "visão de conjunto", ou seja, uma espécie de resumo de acontecimentos diversos sem a pretensão de dar a eles uma leitura definitiva ou totalizante. Algo como um guia no qual todos podem se apoiar e até mesmo contestar. Foi o que aconteceu, por exemplo, com um artigo publicado em setembro do ano passado, Declínio da MPB, em que Piza critica o enfraquecimento criativo de grandes nomes da música, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e outros. Descartando uma apressada explicação (veteranos, eles não têm mais o frescor dos jovens), Piza contesta ao lembrar que cancionistas da velha guarda como Lou Reed e Leonard Cohen continuam exibindo uma vitalidade. O problema poderia estar, então, na qualidade da atual geração, ainda aquém quando comparada aos medalhões. Tal consideração provocou dias de discussão entre os leitores, com defensores e detratores buscando a palavra final. A política também passa pelo filtro intelectual de Daniel Piza que, no livro, acompanha desde o frustrante segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso na presidência até a não menos animadora gestão Lula. O primeiro artigo, aliás, publicado em agosto de 1998, comprova que nem sempre a escrita jornalística tem vida curta. Com o título A Desilusão Política, Piza enumera questionamentos que ainda sobrevivem, como "Uma reforma do sistema eleitoral e político brasileiro deveria ser para ontem, mas raríssimos têm coragem de falar nela". Ou ainda: "Podemos ter a nona economia do mundo, mas temos um sistema político de nonagésima categoria". Da invasão americana a Bagdá ao culto às sábias palavras de Saul Bellow, Daniel Piza atua como um homem renascentista em pleno século 21, capaz de escrever com competência sobre assuntos diversos.

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