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Contemplação do haicai escapa ao poeta Maluquinho

Ziraldo parece mais preocupado em transmitir comentários jocosos e conselhos edificantes para crianças

Dirce Waltrick do Amarante, Especial para o Estado

27 de julho de 2013 | 02h14

Os Hai-Kais do Menino Maluquinho é a mais nova "aventura" do conhecido personagem de Ziraldo. O livro promete uma incursão pela estética oriental dos haicais. À primeira vista uma oportuna proposta de leitura para as crianças brasileiras, ainda pouco familiarizadas com a concisão da refinada poesia imagética japonesa. Só que a expectativa de termos em mãos um bom livro de haicais se esvai logo nas primeiras páginas, quando lemos, por exemplo, um poema como: "Falei primeiro./É um livrinho legal, Mas falta o cheiro", ilustrado pela imagem ao lado.

O que parece faltar na maioria dos haicais de Ziraldo é, acima de tudo, algo muito prezado pelos mestres japoneses: a imagem e a suspensão momentânea da linguagem demasiadamente afirmativa. A cena ambígua é o que deve predominar.

Roland Barthes lembra que a suspensão da linguagem no haicai aparece como uma "imensa prática destinada a deter a linguagem, a quebrar essa espécie de radiofonia interior que se emite continuamente em nós, até em nosso sono". Ele age, portanto, "sobre a própria raiz do sentido, para fazer com que esse sentido não se difunda, não se interiorize, não se torne explícito, não se solte, não divague no infinito das metáforas, nas esferas dos signos", prossegue Barthes.

Ziraldo não consegue deter a linguagem nesses haicais para crianças. Ao contrário, o escritor parece fazer com que a "imagem" prolifere em bons conselhos, mostrando-se incapaz de fugir à velha prática edificante da literatura infantojuvenil brasileira.

Ziraldo certamente está familiarizado com o conceito de haicai, que ele descreve sucintamente na introdução, definindo-o como pequeno poema de três versos, feito com ideogramas e não com sílabas e palavras, portanto, que já nasce com a força de uma imagem. "É como se fosse um flash que ilumina o instante que vai ficar registrado, ele é uma foto sem filme, uma legenda sem foto, um instantâneo feito de palavras." Mas essa boa teoria não corresponde à prática (seu poema é na verdade um tipo de "senryu", breve composição "cômica"), pois o escritor parece sempre muito mais preocupado em transmitir comentários jocosos do que em oferecer imagens poéticas: "É hilário!/A internet roubou meu prazer/De ler o dicionário."

Segundo o estudioso William Higginson, autor de The Haiku Handbook (livro que ensina como escrever, compartilhar e ensinar haicais), o maior "ensinamento" do haicai talvez seja fazer o leitor respeitar a experiência dos outros, pois através da sua leitura "podemos conhecer as sensações e os acontecimentos que excitaram nossos pares. Poderemos começar a ver quão profundamente o ser humano, em todos os tempos e lugares, se identifica com o meio ambiente onde vive e com as criaturas que o povoam". Encontramos exatamente isso no seguinte haicai do poeta japonês Kobayashi Issa (1762-1826): "Ó, caracol do verão,/Você vai devagar, bem devagar/Ao topo do Fuji!". O haicai seria o resultado de um momento de contemplação.

O poema de Ziraldo que mais se aproximaria do haicai, se considerarmos os padrões orientais, talvez seja este: "Deita na cama/O poeta que vive aos pés/Do Fujiyama."

Resta observar que no haicai japonês não existe a rima. Ziraldo inseriu a rima nos seus haicais, conforme, ele mesmo admite, sob a influência de Guilherme de Almeida. Mas a rima de Ziraldo, infelizmente, muitas vezes é apenas um rípio, como verificamos em hilário/dicionário.

 

* DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA DE 'AS ANTENAS DO CARACOL: NOTAS SOBRE LITERATURA INFANTO JUVENIL' E DE 'PEQUENA BIBLIOTECA PARA CRIANÇAS' (ILUMINURAS).

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