Contém: tolice exacerbada

Na semana passada falei do meu apreço pelas videolocadoras, mas esqueci de mencionar um de meus passatempos favoritos nesses locais: o de espiar a contracapa dos DVDs e apreciar as linhas miúdas da classificação indicativa dos filmes

Vanessa Bárbara, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2016 | 07h00

Na semana passada falei do meu apreço pelas videolocadoras, mas esqueci de mencionar um de meus passatempos favoritos nesses locais: o de espiar a contracapa dos DVDs e apreciar as linhas miúdas da classificação indicativa dos filmes. Junto com a faixa etária, há sempre dois itens muito proveitosos: a descrição do tema e do conteúdo. 

Por exemplo: o tema de Gremlins (1984) é: “Estranhas criaturas que se transformam em seres diabólicos”. O de My Fair Lady (1964) é “ascensão social”. Sobre A Viagem (2012), o tema é “experiência de vida”, e o de O Exterminador do Futuro (quadrilogia), é “sobrevivência da raça humana”. 

O mote de Império dos Sonhos (2006) é “conflito de identidade”, e a fita contém “exposição de cadáveres”. A inocente série Gilmore Girls (2000) inclui “conflitos”, e o filme Todos os Homens do Presidente (1976) contém “desvirtuamento moderado dos valores éticos”. 

Já a série Prison Break (2005) traz o tema “fuga” e uma enormidade de advertências de conteúdo: “assassinato, tortura, mutilação, suicídio, enforcamento, sequestro, agressão física, agressão verbal, ocultação de cadáver, apologia a drogas, linguagem obscena, insinuação de sexo, erotismo, carícias, assédio sexual a menor, consumo de álcool por adulto”. (Destaque para “carícias”.)

A despeito de meu monumental desprezo pelo catálogo da Netflix, também é possível se divertir moderadamente com a advertência de certos filmes – não são todos que trazem tal informação. Manhattan (1979) contém “conflitos psicológicos atenuados”, e Gandhi (1982), vejam só, tem “agressão física e homicídio”. Vários possuem “tema impróprio”, como o faroeste Por uns Dólares a Mais (1965) e Wall Street: Poder e Cobiça (1987). 

Quentin Tarantino é só diversão na área de advertências: Bastardos Inglórios (2009) tem “homicídio, crueldade, mutilação”, Django Livre (2012) contém violência extrema, Cães de Aluguel (1992) apresenta “violência pesada, linguagem imprópria”.

Uma das características da Netflix é a descrição kitsch do teor de seus filmes, bem própria de uma empresa que usa algoritmos para identificar o gosto dos usuários e até para produzir novos conteúdos. O site não só descreve o gênero da fita, mas determina o espírito das cenas, que podem ser: inspiradoras, emocionantes, empolgantes, alto-astral, espirituosas, românticas, irreverentes, despretensiosas, provocativas, arrepiantes e visionárias.

Annie Hall (1977) tem cenas e momentos “pouco convencionais, complexos”, ao passo que em Star Wars (1977) eles são “criativos”. No caso de Assassinos por Natureza (1994), são “controversos”. O espectador em busca de emoções prontas pode, por exemplo, clicar em Pulp Fiction (1994) e obter cenas “empolgantes, tensas, filmes excêntricos”.

Mas minha favorita é a contracapa do DVD de O Discreto Charme da Burguesia (1972), que traz o tema: “jantar surreal”. 

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