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Contatos imediatos

Contatos íntimos com alienígenas são para muitos uma fantasia. Afinal, até hoje só o Super-homem nasceu em Kripton e renasceu como um americano exemplarmente tranquilo (com DNA liberal e igualitário) no coração da América. Mas o fato é que todo dia temos encontros íntimos com "outros" de todo tipo. O mais comum é a esposa ou a empregada; o mais geral é o avô; o mais intrigante é o descendente que, mesmo tendo o nosso sangue, faz coisas de arrepiar os cabelos; o mais f.d.p é o governante que rouba os nossos impostos ou não sabe o que ocorreu com eles.

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2013 | 02h13

O mais enigmático, porém, é o estrangeiro. O que vivia na casa dos nossos ancestrais: aqueles escravos que pertenciam à família e à casa, mas não ao Brasil; e os "índios" que fazem parte do Brasil, mas não são brasileiros como nós.

O "outro" - o alternativo ao nosso modo de ser e pertencer não está em outro planeta, está ao seu lado e até mesmo dentro de você como provam as tragédias. Não é que o mundo esteja ficando mais incerto, como querem os tolos, é que a alteridade é uma propriedade do que chamamos de humano - algo concebido pelo Ocidente como sendo igual pelo menos a si mesmo. Eis uma falácia do tamanho de um bonde ou da corrupção à brasileira.

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Foi premonição. Eu escrevi duas crônicas rememorando visitas ao povo Gavião em 1961 - esses "índios" que são os nossos outros mais próximos - e testemunhei a "invasão dos índios" ao recinto da Câmara dos Deputados. Não é fácil topar com o "outro" cara a cara. O que aflige é não saber as intenções do alienígena. Essas intenções que promovem insegurança e correria que vi na televisão.

Afora isso, vivi a ingrata surpresa de descobrir que o Conselho Nacional de Pesquisas me obrigava a declarar no meu Currículo Lattes (onde rotineiramente registro minha produção acadêmica) uma inesperada filiação étnica ou racial! Pode-se evitar a declaração, como fiz. Mas sem a resposta, os dados de minha biografia acadêmica obrigatória, sujeita às penas da lei, não são enviados. Eis uma desagradável experiência do "outro" num órgão para o qual eu sou, na área das Ciências Sociais brasileiras, um contribuinte de primeira hora.

Sempre fui favorável às cotas étnicas. Cansei de testemunhar a ausência de não brancos só terem uma presença exemplarmente ausente das elites do Brasil. Na rua, negros, pardos, mulatos e mestiços são legião, mas em qualquer foto oficial de qualquer ministério, gabinete, embaixada, comitê ou comissão, os não branquelas são uma nobre minoria.

O que me intriga nessa obrigatoriedade de declarar a etnia ao egrégio Conselho Nacional de Pesquisa, a quem eu devo tanto e sou profundamente agradecido, é descobrir o que a autoclassificação étnica tem a ver com pesquisa acadêmica e científica. O que caracteriza a segregação não é somente a distinção física nem a autoclassificação, mas o loteamento obrigatório e institucionalizado que o Brasil conhece muito mais como pobreza do que como raça. Num concurso público eu acho importante prever cotas para não "brancos". Sobretudo, enfatizo, não "brancos" pobres. Mas qual é o propósito de saber se sou desta ou daquela etnia quando eu registro no meu Lattes um artigo ou livro que acabo de publicar?

Não estaríamos correndo o risco de promover racismo quando o nosso objetivo seria reduzi-lo ou liquidá-lo?

Conta o folclore que um famoso intelectual, notável pelo seu engajamento no sentido de transformar o Brasil, ao ser apresentado ao formulário de visto para visitar os Estados Unidos (cujos órgãos de fomento à pesquisa não tem um Lattes, mas tem um presidente negro e teve KKK e segregação racial) no qual se solicitava uma declaração de "raça", ele não marcou "branca", "negra" ou "indígena", mas escreveu "humana"!

Espero que sejamos todos dispensados dessa asneira racista.

PS: Nesse contexto, que ninguém deixe de ler a nota de Elio Gaspari sobre como se faz uma biblioteca digital pública nos Estados Unidos com quase nada da viúva, que lá - pelo visto - é muito bem-casada com o povo.

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