Contatos de terceiro grau

Astro de Hollywood persegue alienígenas no Nordeste

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2012 | 03h08

Gerson Sanginitto fez o que não é fácil - um diretor brasileiro que arma uma produção internacional e traz ao País um astro de Hollywood. Área Q estreou na semana passada. A crítica colou no filme o rótulo de ficção científica "espírita". Para o diretor, Área Q não é nada disso. "Não é espírita, não é nem ficção científica. Os elementos de ficção, a abordagem espiritualista, na verdade são um pano de fundo para o drama desse pai cujo filho desapareceu."

Já era o tema de Contatos Imediatos de Terceiro Grau, de Steven Spielberg, de 1977. Lá, um homem, o personagem de Richard Dreyfuss, perseguia seu sonho e uma mãe, Melinda Dillon, buscava o filho abduzido por ETs. Os caminhos de ambos convergiam para aquela montanha. O de Matthews, o personagem de Isaiah Washington, para essa montanha de pedra encravada no Nordeste brasileiro, na área Q, cujos municípios começam com essa letra - Quixadá, Quixeramobim. É um lugar onde ocorre uma incidência muito grande de contatos do terceiro grau.

Apesar do nome, Isaiah não tem parentesco com Denzel Washington. É um ator que você conhece, da TV e do cinema. Na primeira, apareceu em séries como Law & Order e Greys's Anatomy. No segundo, em filmes como Crooklyn - Uma Família de Pernas Pro Ar, Irmãos de Sangue e Garota 6, todos de Spike Lee. Isaiah esteve em São Paulo para promover Área Q. "Recebi o roteiro no verão de 2009. Li e me interessei, mas o fator determinante foi a reação de meus filhos. Tenho três. Dois meninos que, na época, tinham 10 e 7 anos, e uma menina de 4. Li o roteiro para eles como se fosse uma história de ninar. Todos gostaram e ela disse que eu tinha de fazer o filme."

Isaiah Washington admite que seu interesse pelo Brasil é global. "Como economia emergente, é um bom país para investimentos. Por que não investir também em novos diretores, novas produções?" Ele gostou de sua temporada brasileira. Aprovou a equipe, impressionou-se com a locação. Como afro-americano, Isaiah só é reticente quando o assunto é Barack Obama. "Todo mundo me pergunta o que penso da presidência dele. É um homem sério, decente, mas sobre o presidente só vou falar num livro que pretendo escrever."

Como ficção, Área Q mistura elementos disparatados demais. O próprio rótulo de 'espírita', que desagrada ao diretor, não contribui, embora se explique. Toda a área Q é energizada pelos alienígenas (como em Cocoon). Ocorrem fenômenos de cura, o personagem de Murilo Rosa permanece eternamente jovem. Há um discurso, tipo mensagem do autor, em que Chico Xavier, Gandhi e Madre Teresa são pintados como ETs, no sentido de serem pessoas especiais, fora de série. O público não se sensibilizou. Lançado com 30 cópias, fez 300 espectadores, de média. Com sorte, deve chegar a 50 mil pagantes. Como reencarnação da inteligência dos marcianos, os terráqueos belicosos de Uma Sepultura na Eternidade, de Roy Ward Baker, de 1967, são muito mais intrigantes.

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