Contaminação criativa

Em sua segunda edição, Festival Cena Brasil Internacional continua a investir no intercâmbio entre grupos

DANIEL SCHENKER , ESPECIAL PARA O ESTADO / RIO, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2013 | 02h09

Privilegiar o processo em detrimento do resultado é uma das características principais do Festival Cena Brasil Internacional, que chega hoje à segunda edição no Rio. Essa plataforma não deve ser entendida como uma despreocupação com a qualidade, que, inclusive, norteia a seleção brasileira e estrangeira. Contudo, o diferencial da iniciativa reside no esforço em promover uma interação criativa entre as companhias, que não são convidadas apenas a realizar apresentações avulsas, mas a permanecer na cidade durante todo o tempo do festival e entrar em contato com outros grupos.

"É difícil manter as companhias em residência no Rio por causa dos custos. No entanto, só tem sentido se acontecer dessa forma", afirma o produtor Sérgio Saboya, idealizador do festival, que reúne 18 espetáculos (11 brasileiros e sete estrangeiros) a preços populares. O evento ocupa, até o dia 16, o Centro Cultural Banco do Brasil, a Casa França-Brasil e o entorno da região. Diferentemente do ano passado, quando viajou para São Paulo e Lorena, o festival não sairá do Rio devido a limitações orçamentárias.

Não por acaso, o evento conta com uma parte voltada para residências. Alguns grupos foram incluídos: Cia. Mungunzá de Teatro - com Luis Antonio-Gabriela; Teatro Independente, Teatro Inominável, Omondé - coletivos congregados no projeto de montagem de Maravilhoso; Grupo Magiluth - com Aquilo Que meu Olhar Guardou para Você; e Companhia do Latão - com Patrão Cordial. A integração entre experiências diversas também rendeu What I Heard About the World, gerado a partir da conexão entre as companhias Mala Voadora, de Portugal, e a Third Angel, da Inglaterra. E o Cena Brasil Internacional travou parceria com o Festival de Arte Serrinha, em Bragança Paulista, que permitirá que esses dois grupos estrangeiros e a Companhia do Latão sigam para lá com o intuito de trabalhar em processo colaborativo.

As companhias em residência poderão ser selecionadas para festivais internacionais. Este ano, quatro grupos (Amok, Armazém, Caixa de Elefante e Teatro Máquina), que estiveram no Cena Brasil Internacional do ano passado, irão para o Festival de Edimburgo. "A escolha não é minha e sim dos próprios grupos", frisa Saboya, acerca da iniciativa, apoiada pelo Ministério das Relações Exteriores, que visa à difusão de espetáculos brasileiros no exterior. "Esta inserção é fundamental. Há grupos que se sustentam mais no mercado internacional do que no Brasil. Atualmente, no País, as companhias não estão conseguindo manter repertórios. As temporadas ficaram meteóricas. Os períodos de processo investigativo vêm diminuindo. Nós nos tornamos muito dependentes do poder público. É necessário pensar em modelos distintos. A mudança precisa vir dos artistas."

Independentemente das relevantes questões de mercado, os espectadores do Cena Brasil Internacional vão se deparar com uma seleção interessante. Além dos trabalhos citados, o festival aposta no teatro argentino, representado pelos grupos Teatro Timbre 4 (com Tercer Cuerpo) e Intimo Teatro Itinerante (com Pueden Dejar lo Que Quieran). Da Bélgica vem o grupo De Facto (com Les Langues Partenelles).

Entre os destaques, o Latão faz a sua primeira temporada com Patrão Cordial, montagem escorada em O Senhor Puntilla e seu Criado Matti, peça de Bertolt Brecht, e inspirada em Raízes do Brasil, livro de Sérgio Buarque de Holanda. "O texto fala sobre a dialética da intimidade como moeda de dominação simbolizada pela figura do patrão cordial, que está se extinguindo. A nossa elite vem assumindo uma postura mais direta, menos mascarada. Cabe observar como um mesmo discurso ideológico muda de feições ao longo do tempo", explica o diretor Sérgio de Carvalho. Projeto internacional, mas próximo do público brasileiro, Bane é uma trilogia escrita por Joe Bone, que se encarrega de interpretar 38 personagens. "Busco a fusão entre a linguagem teatral e a cinematográfica", assinala Bone.

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