Beto Barata/ Estadão
Beto Barata/ Estadão

Contadora de histórias

Em peça e filme, a atriz Maria de Medeiros dá testemunho sobre as transformações do mundo

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2013 | 02h11

Desde que foi estudar em Paris, há 20 anos, a portuguesa Maria de Medeiros tornou-se cidadã do mundo. Ela mora na França, com regulares idas a Portugal. Tem passaporte franco português e agora arrisca-se a integrar uma terceira nacionalidade ao currículo. Maria sempre gostou do Brasil - da comida, da música, das gentes. "Renatinha é uma das minhas melhores amigas", ela diz, com seu inconfundível sotaque português, porque esse não se perde. Refere-se a Renata de Almeida, viúva de Leon Cakoff, que segue mantendo a grande obra do marido - a Mostra. Desde janeiro, Maria aportou em terras brasileiras. O que a trouxe, desta vez, foi uma peça que estreia amanhã em São Paulo, depois de passar por Rio e Brasília.

Chama-se Aos Nossos Filhos e é a primeira peça adulta da carioca Laura Castro, que divide o palco com a atriz. Laura tem currículo como escritora para teatro infantil. Exercita-se agora com algo mais denso e, talvez, polêmico. Aos Nossos Filhos discute a família contemporânea com base em experiências da autora. A peça levou Maria recentemente a Portugal, para uma curta temporada. Em São Paulo, serão dois meses, o primeiro no Sesc Santana.

Aos Nossos Filhos tem título de música. A peça trata do quê?

Trata de um conflito entre mãe e filha. Eu faço a mãe divorciada, que foi casada três vezes e teve filhos em dois casamentos. A personagem lutou contra a ditadura militar no Brasil, foi exilada e morou em vários lugares do mundo. Laura é a filha e, comparativamente, é mais careta, mas não lhe falta ousadia para enfrentar o preconceito. Vive há 15 anos com outra mulher. E agora vem comunicar à mãe que sua companheira está grávida. Carrega no ventre sua semente. A notícia acirra desencontros e mal-entendidos que têm marcado a relação das duas.

É sua estreia nos palcos brasileiros?

Não apenas isso, como eu também falo "carioquês". Tive um ótimo professor, o diretor João das Neves, que parte do texto para refletir, na montagem, sobre a liberdade individual e as novas configurações de relacionamentos. O assunto ainda mexe com o conservadorismo. Paris, para citar a cidade que escolhi para morar, tem uma ruidosa parada do orgulho gay (Não por acaso, Abdellatif Kechiche solta dentro dela sua câmera que acompanha as protagonistas (lésbicas), Adèle Axerchopoulos e Léa Seydoux, numa cena do filme que acaba de lhe valer a Palma de Ouro, 'A Vida de Adèle'.) A parada é uma coisa, mas uma minoria - as autoridades francesas assim dizem e as pesquisas confirmam - tem protestado e até atraído multidões contra o casamento gay, em defesa da família. A França é um país maravilhoso, com uma longa tradição republicana - liberté, egalité, fraternité -, mas ocorrem esses surtos de passadismo.

Como Aos Nossos Filhos surgiu em sua vida?

Laura (Castro) mandou o texto para mim em Paris e me interessei de imediato. Havia uma coincidência entre a peça e o filme que vinha desenvolvendo como diretora, um documentário sobre Denise Crispin e sua filha Eduarda, que me foi proposto pela Comissão de Anistia e Reparação do Brasil. Denise foi a companheira de Eduardo Leite, o Bacuri, um resistente brasileiro que foi barbaramente assassinado pela ditadura militar. Denise e a filha conseguiram fugir para o Chile, onde tinham o apoio de Allende, mas foram de novo apanhadas, agora pelo golpe militar de Pinochet. Daí fugiram mais uma vez para a Itália, onde residem há 40 anos. O documentário chama-se Repare Bem e conta a história do reencontro de mãe e filha com o Brasil, graças ao processo de anistia e reparação. Acho que dá continuidade a Capitães de Abril, que era ficção e mostrava o encontro de Portugal com a democracia. O encontro delas é também a consolidação da democracia brasileira.

O filme já teve algumas exibições especiais, mas não estreou formalmente. Alguma perspectiva de que isso venha a ocorrer?

Ando numa correria louca aqui em São Paulo, trabalhando muito, mas aproveito para conversar com Adhemar Oliveira, do Espaço Itaú, buscando uma data para estrear Repare Bem na cidade. Acho muito importante que o filme chegue a um público que não é somente aquele que já se interessa por essas questões de militância. Eu mesma me toquei muito pelo aspecto humano. A história de mãe e filha me comoveu tanto que, em homenagem a Denise e Eduarda, gravei no meu CD Pássaros Eternos a canção de Ivan Lins e Vítor Martins, Aos Nossos Filhos. Pois então, quando me chegou às mãos a peça de Laura, com esse mesmo título, construída em torno da música e que também trata de uma relação mãe/filha - e de uma mãe ex-guerrilheira, ainda por cima -, só poderia aceitar o desafio. Laura viveu exilada na Bélgica e me pediu que cantasse Aos Nossos Filhos em francês, A nos Enfants. É uma peça muito forte, muito intensa, mas também é delicada e se abre para outros temas. Pode escrever que o público vai gostar.

Você filmou com grandes diretores - Manoel de Oliveira (A Divina Comédia, Porto da Minha Infância), Quentin Tarantino (Pulp Fiction) e Philip Kaufman (Henry e June)...

...e também o Luiz Villaça, porque adorei fazer O Contador de Histórias. Fiz um filme no Canadá, como atriz, mas não está pronto. E gostaria de filmar Aos Nossos Filhos.

Você fez um show aqui no fim de semana. Como foi?

O show foi com as músicas de Pássaros Eternos e deu para sentir a reação das pessoas. Meus músicos são brasileiros e um deles fiz vir de Paris, onde mora. É uma banda muito especial, que também tem uma relação muito forte com a cidade. Eles me carregaram na noite por uma São Paulo que é deles. Viramos muitas latas por aí.

E o Manoel de Oliveira?

Manoel é aquela energia extraordinária. Tem sempre uns dez projetos engatilhados.

E se ele te propuser algum, mesmo que seja em 2020?

(Risos) Adoraria, porque amo o Manoel e a dona Maria Isabel, mulher dele. São casados há mais de 70 anos, imagine. Infelizmente, nesta passagem por Portugal não pude ir ao Porto para vê-lo, mas sei que está bem. Gostei muito de O Gebo e a Sombra e é claro que se Manoel me chamar, eu aceito, na hora.

Já que a peça se chama Aos Nossos Filhos, e as suas filhas?

São duas garotas, de 15 e 9 anos. Meu marido as acompanha, mas logo virão as férias e a família inteira vai se reencontrar aqui. Sinto muita saudade, mas elas entendem que o que faço também é por elas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.