Conta outra, vovó

Com humor e criatividade, Flávia Savary reconta sete histórias do tempo em que os animais falavam

Bia Reis, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h12

Num tempo em que não havia livros, contar histórias era a única maneira de perpetuá-las. A mãe falava de cabeça para as crianças aquilo que havia ouvido de sua mãe. No meio do caminho, às vezes, a história mudava um tantinho; outras vezes, um tantão. E as crianças, quando cresciam, também contavam do seu jeito, com a sua memória.

A tradição oral, afirma a escritora Flávia Savary, é a avó de todas as histórias. É dinâmica, inventiva, brincalhona. "É o inconsciente coletivo dos povos. A história não fica engessada dentro de uma fórmula, tem uma riqueza fantástica."

Flávia fica fascinada com o fato de uma mesma história às vezes fazer parte da tradição oral de países tão diversos. "No fundo, as culturas penetram e se instalam. Há, como algumas plantas, histórias endêmicas, mas a tendência delas é se misturar com tudo o que tem por aí."

Nascida no Rio de Janeiro, Flávia entrou no mundo da literatura há cerca de 30 anos. Filha da poetiza Olga Savary e do cartunista Jaguar, a escritora começou sua carreira como ilustradora, mas descobriu que tinha muito mais facilidade, agilidade e prazer quando escrevia.

Flávia lembra que sempre gostou de contar as histórias à sua maneira. "Quando conto os meus livros para as crianças, elas dizem: 'Mas não é assim que está escrito!' E eu digo: 'Vocês também podem inventar, colocar os seus caquinhos. Coloquem, porque eles cabem'." Meio sem querer, a escritora acabou escrevendo diversos livros que tinham como ponto de partida histórias da tradição oral.

Agora, ela coloca os seus caquinhos em mais um: De Carona na Carochinha, lançamento da Editora Globinho, com ilustrações do francês Laurent Cardon, especialista em animações e longas-metragens.

Do arco-da-velha. As sete histórias reunidas neste livro datam do tempo em que os animais falavam e quem as contava era a dona Carochinha, uma velha e sábia barata. De boca em boca, elas passaram de geração em geração e chegaram até a avó de Flávia, que as narrava para a neta quando criança. "São histórias do arco-da-velha. Além de adorá-las, tenho um laço afetivo com elas", conta a escritora.

Moradora de Teresópolis (RJ), Flávia lembra com saudades da infância e da época em que as famílias compartilhavam a mesa e as histórias. "Há dois momentos em que as famílias são mais famílias: quando estão à mesa e quando partilham as histórias, vividas ou contadas. Infelizmente, esses momentos estão se perdendo. As famílias não comem mais juntas, porque cada pessoa tem um horário. Com isso, acabam não dividindo mais suas histórias."

Os livros guardados da avó e da mãe ajudaram Flávia a resgatar as histórias do De Carona na Carochinha. A escritora, claro, também lançou mão de sua imensa biblioteca e da clássica Coleção Disquinho, criada nos anos 60 e relançada décadas depois em CD. "Peguei as várias versões das histórias, entre elas as maravilhosas feitas por Monteiro Lobato, que colocava os contos na boca da Tia Anastácia, e fui fazendo comparações."

Diversidade. Flávia mesclou histórias famosas entre adultos e crianças com outras menos conhecidas e acrescentou os seus caquinhos. Assim, O Macaco e a Velha, A Formiguinha Tinhosa, Era Uma Vez o Cabra Cabrez, O Casamento de Dona Baratinha, O Pinto Sura, A Onça e o Bode e A Festa no Céu ganharam versões modernas, com expressões atuais e inesperadas.

O tempero de Flávia está na linguagem simples, nas rimas que aparecem quando menos se espera, no texto cadenciado e nos comentários bem-humorados. Em O Macaco e a Velha, ela conquista a cumplicidade do leitor logo nos primeiros parágrafos, quando afirma que o animal surgiu do nada. "Do nada, uma ova: ele veio atraído pelos cachos de banana, que eu sei!", comenta Flávia, como que se piscasse para a criança. O humor, acredita, aproxima as pessoas, quebra a rigidez que pode, eventualmente, acontecer em um momento de leitura.

Em A Festa no Céu, ela se diverte com as palavras que invadem as nossas conversas com alguma frequência e, de repente, desaparecem. "O motivo que me traz aqui, inclusive (a tartaruga achava chique usar essa palavra, é de irmos juntos. Que lhe parece?", pergunta o animal ao urubu.

A escritora também coloca sotaque brasileiro na narrativa. "Gosto muito do jeito de falar do brasileiro. Somos um povo inventador, sobrevivente. Neste livro, faço várias declarações de amor ao Brasil, a começar pela escolha de cada uma das histórias", explica. E, mais uma vez, Flávia acrescenta seus caquinhos às histórias.

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