Consultas médicas que dão ibope

Da esquerda para a direita: Jacob Pinheiro Goldberg, Roger Abdelmassih, Malcolm Montgomery, Dráuzio Varella, Jairo Bouer e Ligia KogosDepois de seis anos de faculdade e mais tantos outros de residência, surge um novo campo de trabalho. Em vez daquela vida consultório-hospital, uma rotina agitada, com dezenas de entrevistas e até pedidos de autógrafos nas ruas. São poucos os médicos que admitem haver uma ponta de vaidade, estrelato ou vontade de aparecer na TV, mas o certo é que a freqüência com que esses profissionais aparecem na telinha está diretamente ligada ao prestígio deles em seu meio. Uma das seduzidas pelo mundo eletrônico é a dermatologista Ligia Kogos, que, além de ser assídua em programas femininos da TV, aparece com freqüência em publicações especializadas na vida de celebridades. Vaidosa, Ligia assume seu lado estrela e diz que se preocupa até com o ângulo em que é filmada. ?Sou meio Julio Iglesias, sei que meu lado esquerdo é melhor?, brinca. Por causa disso, já chegou a pedir para alguns apresentadores mudarem de lugar com ela na hora das gravações. Ligia recebe, em média, dois pedidos de entrevista por dia. Para organizar sua agenda, costuma marcar todas elas em apenas um dia da semana. Apesar de evitar programas sensacionalistas, diz que é difícil recusar um convite. ?Sei que gosto de aparecer mais do que deveria, mas tenho uma certa fascinação pela mídia?, admite. As aparições na TV fizeram com que o nome de Ligia se fortalecesse e que virasse uma espécie de grife. Carolina Ferraz, Eliana, Ivete Sangalo, Hebe e Tiazinha são algumas de suas pacientes, que contribuem para divulgar ainda mais o seu nome. Sua lista de pacientes conta com 31 mil nomes e marcar uma consulta com ela só com muita paciência. Atualmente, a dermatologista tem horário livre apenas para 2004. Quem encontrá-la na rua, no entanto, pode aproveitar para tirar uma casquinha. Ligia garante que a-d-o-r-a ser reconhecida e que é comum dar receitas para seus fãs. ?O pessoal das farmácias de manipulação diz que, quando chega alguém com uma receita escrita em guardanapo de papel, sabe que é minha?, diz. Ligia já chegou ao cúmulo de autografar um vidro de xampu que leva o seu nome, para uma admiradora mais afoita. Os amigos do ginecologista Malcolm Montgomery também atribuem a ele o apelido de ?médico popstar?, já que é comum o especialista distribuir autógrafos para admiradoras. Malcolm ficou conhecido na mídia por divulgar novos tratamentos ginecológicos e também por namorar artistas famosas. Pelo seu consultório circulam beldades como Ana Paula Arósio, Fernanda Lima e Ana Hickman. ?Acho tudo muito natural, pois sempre tive contato com as pessoas deste meio?, explica. Apesar de fazer pinta de galã e sedutor, Malcolm ? que pretende estrear este ano uma palestra onde cantará músicas de Chico Buarque ? diz que nunca sentiu que aparecer na TV ?massageasse seu ego?. ?Teve uma época que percorria o País dando palestras. Acho que isso acionava muito mais o meu ego.? Para o psiquiatra-VJ Jairo Bouer, mais importante que a vaidade é a vontade de ser um prestador de serviço. ?Consultório é como ourivesaria: exige paciência e tempo, já a mídia divulga suas idéias de uma maneira muito mais ampla e rápida. Isso me fascina?, diz. Há quatro anos na MTV respondendo às mais diversas dúvidas sobre sexo, Jairo se tornou o queridinho dos adolescentes e decidiu apostar mais na sua carreira de comunicador do que de médico. ?Antes passava quase o dia todo no consultório, hoje vou apenas duas tardes por semana e escrevo para revistas, jornais e internet.? Sem glamourO dentista Fábio Bibancos, um dos poucos da área a entrarem para o mundo dos famosos, também passou a enveredar por outros campos depois de se tornar o dentista de nove entre dez celebridades. Bibancos já escreveu livros, foi idealizador de projetos sociais, como o Adote um Sorriso e é autor da peça infantil A Guerra dos Mutans, que está em cartaz em São Paulo. ?O fato de eu conhecer artistas me deu a chance de entender um pouco mais sobre arte e isso fez com que eu aplicasse na minha área o mesmo recurso?, explica. Comparações com estrela e astro, no entanto, fazem Bibancos se envergonhar. ?Seria fantasioso se pensasse que sou artista. Nunca aceitei convite de revistas para mostrar como é a minha sala de espera nem sou reconhecido nas ruas?, diz. Para ele, uma pessoa que sabe como fazer um bom uso da mídia é o médico Dráuzio Varella, que, atualmente, apresenta um quadro no Fantástico. Dráuzio é mesmo um espelho para essa turma. Com seus quadros sobre os perigos do cigarro, primeiros socorros e sobre gravidez se transformou em um símbolo de médico ideal. ?Ele fala de saúde coletiva brincando e é muito sério?, diz Bibancos. No entanto, as gravações e as freqüentes viagens feitas por Dráuzio acabaram custando ao doutor do Fantástico um expediente exaustivo. Na última semana, Dráuzio ficou apenas dois dias na cidade, tempo insuficiente para conceder uma entrevista ao Estado. No grupo dos médicos que preferem ficar longe do rótulo de popstar está também o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, que freqüenta estúdios de TV há mais de 20 anos. Apesar de ter cara conhecida pelo público, Goldberg garante que não costuma atrair a atenção de admiradores. ?Não costumo agradar ao público. Tenho posições muito radicais e polêmicas?, diz o doutor em psicologia que já cuidou do temperamental jogador Marcelinho Carioca, entre outros famosos. Goldberg faz questão de diferenciar a informação, que, para ele, é uma obrigação profissional, de narcisismo ou de objetivos mercantilistas. ?Não me sinto artista e me esforço para não parecer. Sinto que existem profissionais que acabam se encastelando, mas não é o meu caso.? O psicanalista, que há anos não aceita novos pacientes por causa da falta de tempo, diz que acredita na função social do cientista de comportamento, que é a de informar a população. ?Falo baseado no grande repertório de clientes que tenho e acho que isso é um dever social.? Gostando ou não de aparecer, concordando ou não com a atitude de seus colegas de trabalho, o certo é que todos eles fazem coro quando se trata de seguir o código de ética profissional. Todos afirmam que nunca divulgaram seus telefones na tela e que não usam a mídia para cooptar pacientes. Para o especialista em reprodução humana Roger Abdelmassih a compensação em aparecer na tela não é no aumento do número de clientes na clínica, mas sim a informação que foi dada. Abdelmassih estreou na TV em 1972, mas foi depois de se tornar médico de Pelé e ser o responsável por seus filhos gêmeos, em 1996, que virou a sensação dos meios de comunicação. Apesar de, na época, ter sentido um grande aumento no número de clientes de sua clínica ? que já tinha um movimento considerável ?, Abdelmassih acredita que a clientela feita pela imprensa é fugaz. ?Na minha área o que importa é o resultado de gravidez e isso é passado na credibilidade dada de paciente a paciente.? Abdelmassih garante que não se nega a dar informação, mas costuma tomar um certo cuidado com sua imagem. Para se preservar e não correr o risco de aparecer em programas de qualidade duvidosa, o médico decidiu contratar um assessor de imprensa para filtrar as dezenas de pedidos de entrevista que recebe. As alegrias destes profissionais de serem lembrados e convidados para aparecerem na TV se contrasta, ultimamente, com o desgosto do psiquiatra José Ângelo Gaiarsa em não ser mais lembrado. ?Para meu dodói eles não me convidam mais o quanto eu gostaria?, diz o médico que já chegou a apresentar um programa na Band durante dez anos e se vangloria de ter escrito cerca de 30 livros ? nenhum encalhado ? e ministrado milhares de palestras. ?Eu dou ibope. Acho que não me convidam porque deve ter uma fila enorme de gente querendo aparecer na TV.?

Agencia Estado,

26 de janeiro de 2003 | 12h04

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