Imagem Luis Fernando Verissimo
Colunista
Luis Fernando Verissimo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Conspirações

Uma evidência de que a cena da chegada à Lua era falsa (arrá): a bandeira tremulava. De onde vinha o vento que fazia tremular a bandeira americana na superfície sem ar da Lua?

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2019 | 02h00

Nas comemorações da descida do Neil Armstrong na Lua também foram lembrados os 50 anos de teorias conspiratórias sobre o evento, que não teria acontecido. Segundo as teorias, os Estados Unidos estavam perdendo a corrida espacial para a União Soviética, que já tinha colocado um robô na Lua, e precisavam de um lance espetacular para superá-la. Na impossibilidade de botar um homem no nosso satélite sem o risco de uma tragédia que seria vista em todas as TVs do mundo, encenaram o espetáculo sem o risco.

Construíram um trecho da Lua num estúdio da Terra com um chão de, sabe-se lá, raspa de isopor, no qual plantaram uma bandeira americana. Primeira evidência de que a cena era falsa (arrá): a bandeira tremulava. De onde vinha o vento que fazia tremular a bandeira americana na superfície sem ar da Lua?

*

O problema com as teorias conspiratórias é que elas dependem de um somatório de coincidências e conluios que não resistem ao bom senso. A bandeira podia muito bem parecer tremular a um vento imaginário, nada que uma pilha AAA comum não garantiria.

As teorias conspiratórias costumam ser derrotadas pela excessiva criatividade, que muitas vezes beira o delírio. Numa das primeiras missões do programa de voos espaciais tripulados americano, o módulo incendiou antes de ser lançado, matando os três astronautas no seu interior. Surgiu a teoria de que os três tinham feito um pacto para denunciar a farsa do primeiro homem a pisar na Lua, que estava sendo armada pela Nasa, e por isso precisavam ser eliminados. A Nasa teria assassinado os astronautas!

*

Episódios das recentes eleições presidenciais brasileiras geraram teorias para todos os gostos. Alguém podia acreditar que o acidente aéreo que matara o ministro do Supremo, Teori Zavascki, em Paraty fora mesmo um acidente? Ali tinha coisa, o mais provável era um retoque na mecânica do voo programada para derrubar o avião numa manobra mais violenta, no mau tempo que é comum nas aterrissagens na região. A quem interessava calar o ministro?

E a punhalada que supostamente quase matou o Bolsonaro, mas ajudou a elegê-lo? Estranho que o ataque tenha produzido tão pouco sangue, né? Estranho que o autor da punhalada tenha sido diagnosticado como maluco, incapaz de dar qualquer informação sobre seu gesto, como, por exemplo, quem o encomendou. Ali, decididamente, teve coisa. Segundo as teorias, teve coisa.

*

Não tenho gosto ou imaginação suficiente para seguir conspirações, mas confesso que tem uma dúvida sobre a chegada do homem (ou da humanidade, disse Armstrong) à Lua que me persegue há 50 anos: a localização da câmera, daquela maldita câmera separada do módulo, que capta a cena do histórico primeiro passo de uma distância perfeita.

Quer dizer: o primeiro a pisar na Lua não foi o Armstrong, foi quem desceu a escada com o tripé e uma câmera, que montou num ângulo irretocável. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.